A Foice

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O seu plano de dormir 24 horas seguidas tinha falhado, indiscutivelmente. Tinha sido obrigado a sair dos doces infernos da sua cama para enfrentar o sol primaveril que espreitava, inconstante, à sua janela, como se quisesse entrar e fazer-lhe companhia. Mal sabia ele que a escuridão, ali, era mais forte do que ele pode iluminar.

O estômago rosnava-lhe, em fermentação de ácidos, avisando-o, fielmente, como sempre, que se aproximavam tempos difíceis. Doía-lhe até às vísceras aquela verdade inoportuna. Tinha-lhe doído a noite inteira, entre sonhos e devaneios. Sonhos que, aliás, se tornavam mais vívidos, mais intensos a cada dia, como se o seu inconsciente estivesse prestes a engoli-lo vivo.

Havia uma necessidade voraz dentro dele que o fazia querer, em vão, baixar a foice, de uma vez por todas. “ I don’t care”, dizia-lhe nos olhos, enquanto envergava a foice na mão direita, naquela imagem, revestida de sonho.

Sonho e realidade confundiam-se nas substâncias psicotrópicas que o seu cérebro produzia. Aquele ardor de nada, preso no caos dos seus pensamentos e a imagem, por fim, branca, faziam-no enlouquecer lentamente (ou talvez, não tão lentamente assim). Tremiam-lhe as mãos pálidas, que espreitavam por entre as mangas negras que, agora, tão frequentemente, envergava.

Que ardor era aquele? Ódio. Ódio puro, sanguinário e imortal. Ódio preso a fios que nunca o deixaram cortar. E que se tinham desenvolvido num emaranhado de fios, numa teia completa, impossível de desemaranhar. E a teia ia ganhando vida e força à sua frágil sanidade mental.

Talvez um dia baixasse a foice, pensava, febril, naquele sol fortuito que tinha sido obrigado a enfrentar. Dia, noite, era tudo igual. Iluminada pelo sol ou pela lua, a podridão era sempre igual, não havia melhor ângulo a ser observado.

E a teia emaranhava e crescia…

PGM C

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A moldura

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Quando decidiu voltar a voar porque um azul zangado a acordou, deixou numa chávena de chá o tempo que queria correr.

Começou quando se deixou cair no monte de almofadas que previamente empilhara no chão. Fixou a parede azul e pensou que as cores devem, secretamente, ter histórias para contar, lições para ensinar e traços de personalidade bem vincados em cada tom, visto que este azul era definitivamente um antipático, dotado de óbvia hostilidade, porque rapidamente a enjoou. Um azul maldisposto, irritante e nitidamente mal pintado, como sugeria o relevo descarado, provavelmente oriundo de uma pincelada grosseira que nem espalhou a tinta. Podia até afirmar que esta fora atirada à parede ao acaso, multiplicando os traços texturizados que ondularam a superfície plana.

O impacto visual teve o mesmo efeito que um barco num mar revolto, e a náusea fê-la concluir que estava, decididamente, demasiado inclinada. Tirou uma almofada da pilha que improvisara, ficando assim completamente deitada sob o tecto branco. Parecia melhor até reparar nas fitas que caíam em espiral do candeeiro de fantasia e giravam, giravam sem parar, sob a lâmpada amarela. Prontamente, todo aquele rodopiar fez surgir, na parede abaixo, sombras cinzentas que dançavam na panóplia de amarelos tontos e azuis zangados, desenhando círculos verdes endiabrados e pintinhas às voltas, como num caleidoscópio.

  Não há condições.

Levantou-se para fechar as janelas e parar com a brincadeira da corrente de ar nas fitas, mas esta trazia-lhe recordações cor-de-rosa e o aroma de citrinos e canela do chá que lhe aconchegava o âmago. Tinha demasiado para fazer, e o tempo urgia entre batalhas de cores furiosas e sombras inquietas, o tempo que lhe pedia que o estimasse, que o poupasse, que não o empregasse onde não pudesse persistir depois de passar a correr. Mas que autoridade tinha o tempo?

Deixou a janela aberta, a que trazia a corrente de ar que lhe abrira as asas tantas vezes, as asas que fechara porque o tempo lhe tinha dito que o seu mundo não era alado. Mas o tempo afinal é um tom de várias cores maldispostas, quando deixado à solta. Cada um faz o seu tempo e cuida dele, e a sua duração depende da cor das mãos que o moldam.

O chá arrefecia, que o tempo com ele era rápido. Deixou então a chávena à janela, ao sol, para que o tempo lá ficasse em vapores doces de laranja e travos picantes de canela, e encontrasse o seu lugar sem precisar de correr e de esfriar, para que não a apanhasse enquanto abria as suas asas. Moldou o seu tempo com mãos vermelhas, criando mais lembranças cor-de-rosa.

Porque deram o céu ao tom de azul que voou. O sol ao amarelo que se encontrou.

PGM F

Os Execráveis

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Tenho para mim que as pessoas fazem demasiadas perguntas. Não nasci para ter que dar satisfações a ninguém.

As pessoas são esquisitas, todas elas. Mudam de ideias constantemente e, no entanto, quando, de facto, deviam mudar são totalmente inflexíveis porque as crenças e antigos dogmas têm a força de um punhal espetado na carne.

As pessoas recusam-se a transmitir informações importantes. Não as censuro. Toda a gente esconde informações importantes. E as pessoas censuram tudo.

Odeio ordens, regras e ter que depender de terceiros seja para o que for. É dificil ter sentimentos positivos num mundo rodeado de pessoas. Às vezes só quero hibernar de toda a gente. Outras vezes só quero ver pessoas por aí.

As pessoas não aprendem. É uma condição humana e não uma caracteristica individual. Posso aprender álgebra mas não conseguirei jamais evitar padrões de comportamento.As pessoas são o que são. Feias.

As pessoas são egoístas. Só pensam nelas próprias. As pessoas não têm sentimentos para além daqueles que lhes concerne. E como são incapazes de perceber a sua própria frivolidade imaginam que gostam de outras pessoas…até lhes deixar de ser útil.

As pessoas são egocêntricas (nós somos o nosso ego). E acham que tudo lhes diz respeito. “Se a Margarida está zangada deve ser porque lhe disse alguma coisa”, “se o Manel está triste é porque tem saudades minhas”. Que arrogância! Com tantos milhões de pessoas no mundo e tantos problemas que nem estão directamente relacionados com pessoas, qual é a probabilidade real? Se eu disser que estou farta de pessoas estúpidas, vinte pessoas ofendem-se, mesmo que não me referisse a nenhuma delas. As pessoas deduzem, porque são cobardes para perguntar. Ignorantes, armados em intelectuais… É o que mais há no mundo!

As pessoas são mesquinhas, rancorosas e vingativas. E escondem todas essas características. Como é que eu hei-de gostar de pessoas? Venha a nós a arca de Noé!

PGM C

a “Canção da manhã fria” de António Patrício

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Hoje sinto que todos os meus versos
serão partes incompletas d’um poema só,
triste como a solidão de Nobre

O som é mudo, a voz calou na garganta
e o frio (ou é impressão)
povoa o meu peito deserto

 

As árvores desfolhadas dão à rua
um estranho ambiente fantasmagórico
deambulada por espectros de cores soturnas

 

E eu olho indiferente para o abandono que carrego
nas mãos incapazes
estátuas frias onde nem os pássaros cantam o dia

 

Vou buscando uma réstia de Primavera
neste dia de folhas mortas
no tépido contacto do teu corpo

 

António Patrício

 

Quero fazer, com honras, as correctas apresentações ao autor corajoso por aceitar o convite de entrar na Esfera e partilhar um dos seus “Apontamentos de Babel”.

António Patrício, como é conhecido na blogosfera, tem trazido boas leituras à Esfera, acompanhamos os poemas que contam tanto sobre este “não poeta” assumido.

Deixo-vos com as palavras do mesmo:

“Eu!?…

Eu? Sou eu , está bem de ver! Com defeitos e virtudes; passado (por vezes complicado), e presente! Futuro?
Por esse vamos esperar que seja presente e depois logo se vê!
Nasci a espernear e aos berros, em 1963…
José António Patrício Pereira, foi o nome que me deram (porque alguma coisa me teriam de chamar), eu acho que António Patrício é mais prático. Fiz muita coisa na vida; foi nos jornais que me senti em “casa”. Vou tendo a mania que escrevo alguma coisa; mas, acreditem, é mesmo só mania.
Sou (ou tento ser), uma pessoa igual, e diferente, de todos os outros.
Na bagagem levo já amores (uns ganhos outros perdidos), dores (o quanto baste), e algumas, outras, lutas por começar.
Nasci… Tenho alguns anos de vida…
E ainda não morri!
É a vida!!!

E agora, se me permitem, vou continuar a respirar; que a viagem é longa e a vida muito curta para a completar.”

Visitem: https://apontamentosdebabel.wordpress.com/indice-geral/

PGM J

Lilith (Uma música, muitas palavras)

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Cresce-me a luz da dúvida na fronte. Mal me toca a carícia da intuição, que cego me fiz, dançando valsas e cortejos só, à confiança dos sentidos, de olhos fechados, com o fantasma do meu agora reencarnado desânimo. Cresce-me a necessidade de usar palavras. Palavras que silenciara e trocara por adornos de realeza perfurando a pele macia, quente, fugaz, violeta. Palavras trocadas que cimentaram bases de paz. Cresce-me o impulso, empunho suspeitas prontas para me flagelar, suspeitando do meu objecto e da minha suspeita, vocifero as hipóteses que tecem as três bruxas da minha introspecção, que me fazem companhia, alienação, solidão, mania. Afogo-me em retratações, entre cláusulas que assumo para comigo com rigores e temores.

Cresce-me na fronte a sombra da perda, sobre os olhos que procuraram com ambição e não folhearam os capítulos soprados pelo vento pestanejado pela rapidez vigarista de olhos desassossegados. As palavras voam no silêncio de segundos, no desmaio da minha crença. Alço a batuta, em repetido alívio e flagelo, sangro, soo o alarme do descontentamento, largo os uivos da suspeita que me desenlaçaram do sacrifício do orgulho, do suicídio do medo. Findo-me com as palavras que te convocam, que te acusam para me justificar tão inquieto, tão incerto.

Digo apenas que amarias o meu corpo conforme dizes de tua vontade, não amando, amarás outros na rebentação, que és volátil impressionável Vénus e serei eu ardido Vulcano, trabalhando o aço azulíneo para te desbravar as amarras do egoísmo ácido que atiras sobre o meu peito descoberto.

Atravessa-me a fronte, eclipsando a manhã da razão, uma Lilith maligna que me destrona do bom julgamento, em velhas lembranças, na velha cegueira impotente, de amarguras imprevistas. Cumprindo-se o presságio adiantado pela melancolia, farei minhas as lágrimas seguradas de Adriano, pelo fúnebre brilho que se abate no meu olhar afogado pela perda do teu níveo frescor.

PGM J

A loucura entre vírgulas

Vírgula

Ai ai! Minhas caras vírgulas, deixem de ter tanto a mania. Deixem de causar-me tantas dores de cabeça, dúvidas e dilemas existenciais, cada vez que procuro ter belos momentos a sós com as palavras. Aliás, a sós é a minha fantasia! Porque, na realidade, vocês nunca deixam, estão sempre a meter-se entre as palavras (literalmente).

Acham sempre que merecem mais atenção que as palavras e que são vocês quem lhes dá sentido. Quanta petulância! Quanta arrogância! Acham que uma pessoa não tem mais nada que fazer do que perder uns 10 minutos só a tentar descobrir onde vos colocar? Que mimadas! Parem de se achar o centro da folha, uma folha é mais do que a vossa presença. Uma folha é também as ideias que contém, bem como as brincadeiras que as palavras fazem umas com as outras, com ou sem vírgulas!

Para acabar, não pensem que o facto de eu estar a escrever isto com a vossa presença significa que estou a dar-vos razão e maior importância do que aquela que merecem. Não, escrevo convosco por mera piedade, não perdendo, no entanto, nenhum tempo a pensar se estão bem colocadas ou não. É esta hoje a minha forma de vos castigar. Mas continuem a ser assim tão mimadas que eu conto-vos uma história. Hão-de ver, se continuam assim, com esse comportamento de típicas vírgulas, sempre a prolongar e a continuar algo, que neste caso irrita, coloco um ponto final no assunto!

Carlos Walgood Santos (Participação especial)

Nem tudo

NEMTUDO

Nem tudo o que brilha é verdadeiro

Nem tudo o que se vê é real

Nem todo o peixeiro é barraqueiro

E nem todo o moralista é leal

Nem tudo o que dói é amor

Às vezes é só dor

Ou desilusão.

Nem tudo o que pensamos é verdade

E há que confirmar a informação,

Esquecer um pouco o coração

E ouvir a razão e a idade.

Outras vezes basta ver o óbvio

E alimentar a alma de ódio

Há que ter respeito pelos outros

E enfrentar a cobardia

Para não virarmos monstros

É preciso valentia.

Nem tudo o que se sente é puro

Nem todo o pavimento é duro

Nem todos os fins justificam os meios

Mas todas as colheitas dão frutos.

PGM C