Fantasmas amigáveis

 

   Parou-me o coração. A respiração parou uns segundos. Aquela sensação de surpresa quando se reencontra alguém com que perdemos contacto há já algum tempo. Falamos, não falamos, será que nos reconhecem ainda? É no mínimo constrangedor. Também alegre por vezes.

   Hoje foi uma dessas vezes. Ia ter com a Alice ao parque para seguirmos para uma exposição. Não é costume, nem morro de amores pelo tipo de clientela dos museus mas não havia nada de muito melhor para fazer. Ela, para variar, atrasada, iria culpar o trânsito infernal que, todos os dias, à mesma hora, a surpreende como se nunca antes ela se tivesse deparado com ele, ou a dificuldade em encontrar lugar para estacionar, do alto do seu mini cooper, enormíssimo. Era certo e foi sabido.

   Resolvi dar uma volta pela zona enquanto esperava. Odeio esperar parada, parece que fico visível e exposta. Então resolvi usar a capa do Harry Potter chamada “andar” e misturar-me na multidão. Ia na minha vidinha, distraída, a pensar em todo o tipo de impropérios que iria proferir assim que a atrasada da Alice, finalmente chegasse, com a minha acostumada revolta e lá estava ele.

   Não era o amor da minha vida, não era um negócio maravilhoso a delinear-se no meu destino, era o Ricardo, um velho amigo. Passou mesmo ao meu lado, não dava para escapar. Cumprimentei-o, falámos um minuto. Era o Ricardo dos tempos de Faculdade. E não era ninguém.

   A Alice chegou, pouco depois, nem refilei. Olhava para ela e para a imagem dele, na minha mente, e perguntava quem era ela, ou eu, ou ele. Um dia, quem sabe, ela não fosse ele e o meu refilar familiar passasse a um “está tudo bem” cordial. Quem sabe.

-Podias ter dito que vinha sozinha, Rita- refilou a Alice, sobre o meu alheamento. Disse-lhe que também me podia ter dito para ficar em casa mais meia hora em vez de na rua ao frio, à espera dela. Fingir rancor é um dos meus encantos.

   Não me apetecia explicar-lhe que um dia, ela ia ser um momento constrangedor e nostálgico na minha vida e que, se, por essa altura, lhe passasse um camião por cima seria para mim, apenas como ler o jornal. Parecia cruel mas era só humano.

   O Ricardo. Nós riamos e bebíamos e implicávamos e… e éramos amigos. Sem benefícios nem segundas intenções. Éramos realmente amigos, do tipo que parece que crescemos juntos a vida toda. E eu despedaçaria o camião que lhe passasse por cima. Hoje leria o jornal.

    O Ricardo que já não é o Ricardo, é só um Ricardo. E eu só uma Rita. E a Alice para alguém, só uma Alice e não a atrasada da Alice que adora obrigar-me a beber shots de absinto com ela, sabendo que odeio absinto há um par de anos.

    Eu e o Ricardo somos amigos, vamos ser sempre, o Ricardo de 2003 é um dos meus melhores amigos, mas este Ricardo do parque, não me é absolutamente nada, a não ser a recordação de outra pessoa com que partilha algumas semelhanças físicas e um ou outro valor ou hábito.

    Na realidade, já fui algumas pessoas ao longo da vida e, nem eu, sou amiga delas até hoje. Algumas odeio, outras desvalorizo, outras tenho saudades e outras nem dei por elas. E as pessoas gostam de uma ou duas, é difícil gostar de todas as pessoas de que somos feitos. E cada uma tem o seu tempo e o seu círculo de amigos e os seus amores e os seus problemas. Éramos outras da mesma pessoa mas não outra pessoa como muitos gostam de dizer. E aí reside toda a diferença.

Pequena Grande Maldita C

W. Somerset Maugham
W. Somerset Maugham

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