Prece

Todas as letras de que sou feita, toda a liberdade do meu caos literário, é tudo o que há de mais verdadeiro em mim. É o conforto da lareira, o chá dos doentes e o chegar a casa quando se está muito cansada. Hoje, a minha alma está muito cansada e aqui chego a casa vinda do abismo, onde me levantaram, as asas de letras, que cresceram em mim. E fascinada em versos e imagens, em frases e em fantasia, reluz-me de vida os olhos que, tão palidamente, se achavam em mim.

Tenho-te de graça e com liberdade. Que seria de nós sem a liberdade a que nos damos, a liberdade de não te usar, de só te usar porque quero, de só te usar quando me chamas e eu, de pijama e desgrenhada venho salvar-me em ti. E tu, serena e mansa como um anjo, vens enlaçar-te nos meus dedos e ronronar-me languidamente ao ouvido.

No mais escuro de mim tu brilhas e é a paz de ser duas que me dás, que vives em mim e eu vivo em ti e enfim, partilhamos a morada invisível do ser. Não quero deveres e tu não me os dás, não me cobras, não me iludes e ainda te iludes comigo. A liberdade que é suprema em ti corre-me nos pulmões e lembro-me de mim.

E lembras-me tão de mim de vez em quando, talvez porque guardes escondidas, lá no Universo de onde vens, quando me assolas, as memórias que abandonei ao relento à minha porta.

Só tu consegues pintar tudo o que é negro, transformar em cristal os males do mundo, divulgar com a vara da justiça e alimentar os esfomeados. E hoje, curvo-me perante ti,  nesta prece que te ofereço, neste agradecimento triste e escondo, escondo em ti, bem guardado, o que de mais puro há em mim.

Pequena Grande Maldita C

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