Nem sempre é para perceber.

  Vira-se ao contrário, vezes sem conta, a frágil clepsidra da mesma história, aquela que não tem fim, como a água, que corre, pode desaparecer, mas volta e torna a correr. Uma clepsidra pequena, uma história curta para repetir tantas vezes, como um disco riscado que se prende sempre no mesmo refrão. Nem faria sentido se fosse de outra maneira! As tuas mãos não são as mesmas se persistirem no tempo, tal como os meus olhos deixam de ser os que conheces se os deixar acordados em nós mais do que é suposto. Temos de parar, para depois recomeçar tudo de novo.

  É o nosso castigo para o que desconhecemos que fizemos. Para nos cruzarmos temos primeiro de seguir caminhos opostos, e então aí tu deixas de ser tu e eu deixo de ser eu quando nos encontrarmos no lusco-fusco. Ainda hoje a memória, que se esconde nos cantos do tempo que vai passando, tenta descortinar a razão dessa loucura, mas o tempo que passou e o que ainda vai passar não lhe podem responder, porque é a história que se repete sem fim. A verdade incontestável, que é também a única certeza, apesar de inexplicável, é que não nos suportamos sendo o que somos, e só nos entendemos quando somos apressados. As histórias curtas e loucas repetidas até à eternidade, nem sempre têm explicação.

 A clepsidra foi virada, o tempo começa a contar. Observo-te e associo-te a uma estátua de mármore. A tua cara parece ter sido esculpida por um qualquer artista frio e rigoroso; a fronte larga e forte, o contorno perfeito e quadrado do teu maxilar, os traços precisos de todo o teu rosto insinuam um exímio trabalho calculado para te conferir a expressão implacável que o gelo cinzento e teimoso dos teus olhos exigia para os sustentar. Alguém te concedeu então um breve sorriso caloroso e o cabelo dourado para finalizar e humanizar mais a tua moldura, como que adivinhando que precisavas desse toque de harmonia para te equilibrar o semblante. E agora as mãos. As tuas mãos que parecem ter sido moldadas por outro escultor, de inspiração antagónica à do anterior! Este furtou, sabe-se lá a quem, a essência que podia ter sido dada ao teu olhar, por exemplo, e construiu uma obra original: pôs-te a alma nas palmas das mãos e os sentidos nas pontas dos dedos.

  As tuas mãos, que falam por ti. Podias estar quieto, desde que estivesses sem luvas, e eu saberia que estavas ali. Aliás, cheguei várias vezes a preferir-te calado, desde que me tocasses, desde que as tuas mãos se insinuassem a mim. Aprendi a decifrar as palavras que elas proferiam a cada gesto, descobrindo assim que elas dialogavam com os meus olhos, aqueles que dizes que falam por mim.

  Caiu a úlima gota de água, e tornaste a virar a clepsidra. Recomecemos.

  Repete-se tudo novamente. Outra vez, e outra vez. És louco, porque não páras de me procurar nos meus olhos, eu sou louca porque te indago nas tuas mãos; buscamos assim a verdade que temos em nós, porque para nos cruzarmos eu não sou eu e tu não és tu, e vivendo o que somos não nos entendemos, mas nada somos um sem o outro. As histórias loucas nem sempre têm explicação. Especialmente as que não têm fim, como a água.

  Temos, por isso, de ser apressados, recomeçar repetidamente a história curta para sermos sempre verdadeiros um com o outro. A água parece turva; a clepsidra é tão pequenina, que de tantas vezes que já foi e é virada, manuseada,  está frágil, tão suja, como os meus olhos que adormecem e as tuas mãos que se enluvam enquanto lhe damos descanso.

  Agora tens de ser tu e eu tenho de ser eu sem recomeçar a história, não nos podemos apressar, porque a clepsidra se partiu e mais nenhuma se há-de encontrar. São tão raras, assim pequeninas! Não a podes virar mais, não vês a água e os vidros partidos aos nossos pés? Deixa as mãos nos bolsos, que eu tapei os meus olhos. Somos genuínos agora, vivendo devagarinho, tu aí, eu aqui? Veremos.

  Já passou muito tempo sem a história louca, curta e inexplicável se repetir, o sol já se pôs tantas vezes sem que nos encontrássemos no lusco-fusco. Como vai ser agora?

  Estou a chegar ao cruzamento e já te estou a ver. Porque sorris tanto? Que seguras? Espera, acho que estou a perceber. Não consigo deixar de me divertir com a tua teimosia, com a nossa teimosia.  Já olhei para as tuas mãos, já a vi. A única coisa que me ocorre enquanto avanço para ti a rir-me que nem perdida, é questionar-me onde raio foste tu arranjar uma clepsidra nova.

Pequena Grande Maldita F

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