A desconhecida

Aos 16 anos, o único desgosto que se deve ter na vida é o da paixão adolescente mal resolvida.

Aos 16 anos, tinha pêlo na venta e a inflexibilidade de quem tem a mania que sabe tudo, as certezas todas de quem ainda não sabe nada. Tinha a resposta despachada e a leveza de quem não tem preocupações nem em que reflectir. Mas, sob a camuflagem de quem não quer saber, vibrava com a dimensão do que sentia pelas pessoas.Pela família, pelos amigos. Vivia tudo aquilo que é suposto viver com essa idade, incluindo os desgostos. Mas com 16 anos, o único desgosto que devia ter era um infortúnio de paixoneta inconsequente. Nunca um desgosto para o qual não havia sido feita, que jamais conhecera, que não merecia.

A desconhecida chegou sem avisar no Verão.

Quando o telefone tocou, sentou-se no sofá a ouvir a conversa. A palavra precaução não teve o efeito que deveria. Inexplicavelmente, sentiu que o ar não lhe chegava para respirar nem mais um minuto. Alguém chorou. Nesse instante, o coração quase parou, numa inquietação que não conseguia justificar; um peso insustentável do laivo de presságio que lhe caía sobre os ombros. Soube que tinha de ir.

Estava sentada cá fora, à porta, no banco perto da entrada. Os 37 graus daquela manhã e o sol a bater-lhe na cabeça nauseavam-na, os braços ardiam, vermelhos, mas pouco lhe importava. A sala de espera, lá dentro, gelava-lhe o coração, e isso era muito pior.

Hoje, olhando para trás, vendo-se naquela rapariga de 16 anos perdida, queimada pelo sol, desejava voltar atrás e ir lá dizer-lhe para ficar ali. Não, não vás para dentro.

Horas. Passou esse longo dia, e no seguinte lá estava ela outra vez, a esperar horas sem fim. A solidão confortou-a mais nesse dia do que as palmadinhas nas costas dos que lá estavam e dos que iam passando. A escadaria e o corrimão entre pisos ao fundo do longo corredor branco foram o assento e o encosto daquelas horas vazias. Vazias de pensamentos, vazias de si mesma, porque ela não existia naquele instante. Apenas esperava, longas horas negras naquele corredor de paredes alvas, tresandando a éter.

Hoje, não são raras as ocasiões em que sente o odor a éter, às vezes enquanto dorme; o fedor branco de corredores compridos que não lhe dá respostas. Aos 16 anos, o único desgosto que se devia ter era o de paixão mal resolvida. Aos 16 anos, a desconhecida não se devia intrometer nos nossos dias para lhes roubar um pedaço de nós, porque o tempo não cura nada. Ela rouba-nos esse pedaço todos os dias, todos os anos. O tempo não cura, o tempo alimenta as perguntas e vicia a saudade.

 

“Dá cá um beijo. Gosto muito de ti. Até amanhã.”

Deu-lhe um beijo e um abraço, e o dia seguinte chegou frio, em pleno verão.

Andou, andou, andou, naquele cortejo até à porta do fim. Andou por lá de lágrimas mudas. Parecia insensível, apática. Naquele dia, não tinha uma resposta pronta.  Naquele dia, perguntou à desconhecida porque veio sem avisar e condená-la a não saber lidar com o cheiro a éter das paredes alvas que lhe levaram um pedaço de si.

Olhando em retrospectiva, contemplando a rapariga de 16 anos que naquele dia se perdeu ao sol e na escadaria do corredor, constata que pouco mudou desde aí. Mantêm-se as perguntas, que lhe roubam a coragem de lá voltar, que lhe impregnam algumas noites com éter.

Aos 16 anos não se devia ter um desgosto que não fosse de paixão adolescente mal resolvida. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete anos foram passando, mas parece que foi ontem. E a saudade é tanta, que até vendia a alma, se pudesse, só para que hoje fosse anteontem.

( Para o meu avô, onde quer que ele esteja. )

Pequena Grande Maldita F

One thought on “A desconhecida

  1. Consegues reparar na Estrela mais brilhante? É ele a sorrir para ti! 🙂 Ele está-te a observar … e acima de tudo proteger!
    Porque os que mais amamos nunca morrem … são Eternos! ❤

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