Arrepios intermitentes

  Estou para aqui entorpecida por um raio que me partiu, sem que dele me tivesse apercebido. Não me apetece levantar e abrir as janelas; o sol a rasgar as cortinas irrita-me, as correntes de ar incomodam-me. Não é frio, são os arrepios com intervalos. Principiam nos braços e insinuam-se aos ombros, investindo repentinamente para baixo, até ao fundo das costas, fazendo-me sacudir o corpo que dói da inércia.   

 Deixei que a indolência se apoderasse de mim e daquilo que sou feita para combater os incómodos do mau génio, mas este manteve-se incólume, hirto e atento. Quanta inflexibilidade, hã? Valeu a pena, valeu! Paciência, não pedi opiniões.

  Acordei a meio da noite, paralisada. No delírio da ira que a insónia fomentou, desentorpeci as pernas, virei-me, sentei-me, praguejei, e calei-me. Não sei quanto tempo fiquei encostada à parede a tentar perceber se estava mesmo sem dormir ou se estava a sonhar comigo mesma, ali de frente para a janela e para os estores fechados, mas subitamente mexi-me. Levantei-me, ouvi música baixinha, muito baixinha. Movia os braços, os pés. Talvez se abrisse um pouco a janela… mexer-me-ia mais? Não sei ainda se o génio vai pender para o bom ou para o mau. E se a abrir e ficar inerte no sítio para onde voei? Além disso, tenho de aprender a controlar o arrepio que tão violentamente me sacode, caso a corrente de ar entre com o sol que rasga as cortinas. Posso começar já a tentar, com a parede fria que me suporta as costas. E ali a janela, no escuro.

  Uma fresta? Só para começar?

 

Pequena Grande Maldita F

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