6ª Acta PGM: Estamos a ir longe demais com este título

actatriade

 

Chovia. As mudanças pairavam sobre a mesa do café, num ambiente real e estagnado.

As nuvens carregadas da tensão de domingo misturavam-se com os risos catárticos e inevitáveis.

O PGM J disse que ia à casa de banho e foi. Não consegue fazê-lo, simplesmente, sem o anunciar. A PGM C está maravilhada com um lápis em miniatura, que a faz evocar e reforçar a espectacularidade dos mini-lápis para colorir que oferecemos às crianças. A mim, incomoda-me o fumo do meu próprio cigarro, que me entra pelas ventas enquanto tento escrever.

Um pensamento aleatório assalta-me momentaneamente:

– Gostava de ser canhota, assim poderia fumar e escrever ao mesmo tempo!

O PGM J regressou, e cá estamos os três, o retrato de sempre.

Já sabemos que está mau, cai-nos tudo das mãos. Estou à espera que alguém escorregue na calçada e me faça rir, ou que alguém sem braços me aponte o caminho certo, só por causa das cenas.

Olham-me silenciosos, com condescendência, até parece que dizer coisas inúteis vindas dos confins do fundo do mar não é um charme que me assiste. Enquanto me lembro de estar atrasada para a tertúlia matinal, cruzo os dedos ao ver passar um daqueles aviões que deixa um rasto de fumo.

Afasto o olhar com desdém e volto a olhar maravilhada para o meu mini-lápis e a folha escrita até a meio.

Isto vai ácido e carregado de humor inevitável, parvoíces seguidas de queixumes e confissões. Regressa-se aos passeios de encostas verdes onde se partem máquinas fotográficas e se toca “Frère Jacques” numa viola desafinada. Apetece rir quando dois de nós se sentam sob o toldo e outro leva com a rajada de vento e de chuva, mantendo-se no mesmo lugar.

A página parece ser a mesma, não fosse a esfera redonda e maldita.

– “ Estou a escrever montes de memórias que tenho convosco” – disse a PGM F, mais palavra, menos palavra, é assim que me lembro, é assim que fica.

A verdade é que queremos mudanças e o tempo passa desconcertante e sem vergonha na cara. Mudanças na linha do tempo, mudanças sérias e radicais.

Chove. Olhos azuis que são verdes, mas que são verde-azulado e outros que são chocolate, enquanto outros só esverdeiam quando se cansam. E a cada gota que cai é um segundo inútil que passa.

Ninguém se ri sozinho, só em tríade e porque existe a Lei de Murphy, que tanto se revela perante os otários.

Otários mesmo. Ficamos sempre à chuva. Um acontecimento só se torna uma memória depois de reflectido.

– “Está bem”.

– “Ah, partiu-se!” – exclama o PGM J.

É isso! Partiu-se.

PGM F

PGM C

PGM J

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