A moldura

images (3)

Quando decidiu voltar a voar porque um azul zangado a acordou, deixou numa chávena de chá o tempo que queria correr.

Começou quando se deixou cair no monte de almofadas que previamente empilhara no chão. Fixou a parede azul e pensou que as cores devem, secretamente, ter histórias para contar, lições para ensinar e traços de personalidade bem vincados em cada tom, visto que este azul era definitivamente um antipático, dotado de óbvia hostilidade, porque rapidamente a enjoou. Um azul maldisposto, irritante e nitidamente mal pintado, como sugeria o relevo descarado, provavelmente oriundo de uma pincelada grosseira que nem espalhou a tinta. Podia até afirmar que esta fora atirada à parede ao acaso, multiplicando os traços texturizados que ondularam a superfície plana.

O impacto visual teve o mesmo efeito que um barco num mar revolto, e a náusea fê-la concluir que estava, decididamente, demasiado inclinada. Tirou uma almofada da pilha que improvisara, ficando assim completamente deitada sob o tecto branco. Parecia melhor até reparar nas fitas que caíam em espiral do candeeiro de fantasia e giravam, giravam sem parar, sob a lâmpada amarela. Prontamente, todo aquele rodopiar fez surgir, na parede abaixo, sombras cinzentas que dançavam na panóplia de amarelos tontos e azuis zangados, desenhando círculos verdes endiabrados e pintinhas às voltas, como num caleidoscópio.

  Não há condições.

Levantou-se para fechar as janelas e parar com a brincadeira da corrente de ar nas fitas, mas esta trazia-lhe recordações cor-de-rosa e o aroma de citrinos e canela do chá que lhe aconchegava o âmago. Tinha demasiado para fazer, e o tempo urgia entre batalhas de cores furiosas e sombras inquietas, o tempo que lhe pedia que o estimasse, que o poupasse, que não o empregasse onde não pudesse persistir depois de passar a correr. Mas que autoridade tinha o tempo?

Deixou a janela aberta, a que trazia a corrente de ar que lhe abrira as asas tantas vezes, as asas que fechara porque o tempo lhe tinha dito que o seu mundo não era alado. Mas o tempo afinal é um tom de várias cores maldispostas, quando deixado à solta. Cada um faz o seu tempo e cuida dele, e a sua duração depende da cor das mãos que o moldam.

O chá arrefecia, que o tempo com ele era rápido. Deixou então a chávena à janela, ao sol, para que o tempo lá ficasse em vapores doces de laranja e travos picantes de canela, e encontrasse o seu lugar sem precisar de correr e de esfriar, para que não a apanhasse enquanto abria as suas asas. Moldou o seu tempo com mãos vermelhas, criando mais lembranças cor-de-rosa.

Porque deram o céu ao tom de azul que voou. O sol ao amarelo que se encontrou.

PGM F

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s