Vómito

disoriented

Era um dia feliz e agora é triste. Assim, agora é triste, sem direito a aprofundar a sentença. O mundo gira e dá náuseas. O mundo é nauseabundo. Assim mesmo, sem justificação, que o mundo não tem direito a justiças.

Era dia e tornou-se noite. A escuridão engoliu o dia para sempre e o caos dominou o mundo, sem que conseguisse evitá-lo. É assim, a vida não tem magia. E o mundo tornou-se ainda mais feio enquanto o nojo me subia pela garganta e azedava a raiva num vómito.

O mundo é um vómito. O mundo é um vómito. O mundo é um vómito. Nada vale a pena, é tudo uma perda de tempo e as lições passam ao lado quando nos são negadas. E a raiva vem. A raiva. A balança tão desequilibrada da justiça que é cega, surda e muda. E o mundo é um vómito. O mundo é um vómito. O mundo é um vómito. Cada vez mais denso e nauseabundo.

E as borrachas já não apagam e as canetas já não escrevem nas folhas. Ah, o mundo gira e deixa-nos suspensos de cabeça para baixo e amarrados pelos pés, enquanto o sangue nos sobe à cabeça. Mas nem o sangue sobrevive por muito tempo nas trevas que se instalaram. As trevas… Lembro-me de quando a noite era bela. Já não é. A noite é feia, feia feia. O mundo gira na roda dos horrores e o “grito” de Munch é uma brincadeira de crianças. Tempo perdido, é tudo o que sobra. Porque o mundo é um vómito. E fere.

O mundo é um vómito, um vómito, um vómito, até ao infinito. Que nojo!

Pequena Grande Maldita C

Está aí alguém que funcione ao contrário?

 

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Caiu-me assim das mãos, porque elas tremeram.

Subi a rua depressa, dóia-me o nariz com o vento que me batia no focinho. Cheguei a horas. Sentei-me, li, esperei, conversei, chorei, ri-me. A pequena bola de cristal dos meus medos, dos meus desgostos, das minhas fragilidades, caiu, tal como deixei cair a chávena do café e o chapéu de chuva.

  – Mas tu hoje deixas cair tudo?

  – Escapou-se-me, olha… caiu…

 

Não esqueço. Não esqueço o bem, não esqueço o mal. Não esqueço o que desejei. Não esqueço o que podia ter acontecido e eu tenho saudades do limbo em que quase aconteceu. Eu queria ter escolhido. Queria? E agora, que tenho dúvidas? Foi-se a certeza, escorregou por entre os dedos. Caiu, assim. Tenho de me despachar e ir em frente.

O mau feitio e a resposta pronta enervam uns, divertem outros. Fazem parte de mim. Estou-me nas tintas num dia, no outro tenho uma palavra a dar, um abraço para oferecer. Mas não mo peçam, por favor. O que tenho de doce tem de derreter sozinho, tem mesmo de assim ser, porque depois eu não esqueço.

Quando não aceito, aquele nó na garganta ferve e sobe num formigueiro até à nuca, incendeia-me de raiva. Ou de tristeza, conforme o que acontece. Quando não aceito, tenho mau feitio.

É que tenho pelo na venta, mas tenho fraquezas, e quando me dói, dói-me mesmo. Quando o rumo, mesmo o natural, não é o natural para mim, não aceito. Quando não é suposto, eu temo, eu choro, eu berro. E o mundo é tão feio. Não aceito.

Tremeu a minha vida, tremeram as minhas mãos. Caiu assim, fiquei suspensa. Nem me safa ter pelo na venta.

Porque eu funciono ao contrário, e tudo me acontece ao contrário. Caiu assim, porque eu tremi, porque as mãos tremeram.

Eu sou ao contrário.

Caiu.

PGM F

Calma Inquieta

calmainquieta

‘Lá está ele a olhar para nada’, pensou ela ao se deparar com aquele homem ausente, de novo, estático no meio do corredor. ‘Estás à procura de alguma coisa?’, perguntou-lhe, pondo-se de frente para ele. Virou-se para ela, lançando um olhar agora atento para o fundo do corredor, não reparando sequer na sua  presença. Algo o chamou à atenção, e, pelos vistos, não foi a voz interrogativa. Alguém tinha entrado e a expressão vaga enrugou-se. ‘É tão transparente e tão misterioso, ridículo.’

Sentia simpatia por ele, sentia até mais curiosidade que simpatia. Para um homem tão falador como ele, é estranha tamanha ausência. ‘A não ser que recebas correio no escritório, não há ali nada para ti! Era bom que fosse o nosso almoço…’ – suspirou, sacudiu o cabelo solto, olhou-o de soslaio – ‘Acorda, pá!’ – empurrou-o com a ponta dos dedos, tentando sacar alguma reacção. ‘Sim, está tudo bem. Estava à espera de… sei lá eu de quê… Vais almoçar?’ – respondeu-lhe, saindo do aparente transe. ‘Sim, vou agora’ – avançou para a varanda – ‘mas vou primeiro lá fora’ – tirando um maço do casaco e estendendo-lho – ‘queres vir?’. ‘Já vou ter contigo.’- disse com firmeza. ‘Deve ser grave, para ter saído do cubículo dele…’ – pensou – ‘e que olhos são aqueles? Se não o conhecesse bem até diria que tinha cheirado… ou que tinha chorado… mais a primeira que a segunda hipótese, mas enfim’ – e riu-se com a sua constatação, soltando um bafo sonoro, disforme e trapalhão, tentando esconder o riso com a mão. Começava a fazer frio, lá fora, acariciou os braços procurando aquecer-se, deu um último bafo, atirou o cigarro, lançou a cabeça para trás e soltou o fumo vagarosamente, soltando um pouco de cansaço e um pouco de desespero. Viu-o passar e foi ao seu encontro, na esperança de ter a atenção dele, sem sucesso.

Voltou algo acelerado ao cubículo, sentou-se, pôs os pés em cima da mesa com brusquidão, e espreguiçou-se, deixando cair os braços relaxados ao lado do corpo quase deitado na cadeira. ‘Relatórios; listas; e-mails; processos; falar com o gajo dos pagamentos’ – enumerou mentalmente. O tecto estava manchado pela humidade. O tecto estava manchado e apenas esse pensamento roubava a sua atenção. Observando os desenhos nos cantos da sala, apenas deixando-se consumir pela insignificância dos desenhos da humidade, assim se deixou ficar. Não dormiu, não sonhou, não fantasiou, apenas permitiu que a sua cabeça deixasse de funcionar. Afinal de contas é esse o seu mal, levar os pensamentos à exaustão. ‘Não sei se deva acordar ou dormir,’ – confessou – ‘não sinto nada do que está à minha volta. É tudo tão igual e imutável. É tudo tão igualmente inefável, não faz lá muito sentido. Mais do que uma vez me perguntei, só esta manhã, se estaria num profundo estado de sono, ou coma… Isso justificaria esta confusão e apatia… este terror paralisante.’ – ainda encarava o tecto, boquiaberto, deslizando, flácido, pela cadeira. A falta de vida no olhar agravava-se nitidamente, a cada dia. Tentava em vão acordar, repetidamente, no sítio onde adormecera há muito, muito tempo.

Deslizou da cadeira, caindo de frente, batendo com a cara no chão, dormente, incapaz de amparar a queda, com uma perna caída e outra em cima da mesa. Um espetáculo deprimente, se me permite dizê-lo. Que infelicidade a de viver inconscientemente. Que infelicidade a de viver um sonho sem experimentar o impossível.

PGM J

6ª Acta PGM: Estamos a ir longe demais com este título

actatriade

 

Chovia. As mudanças pairavam sobre a mesa do café, num ambiente real e estagnado.

As nuvens carregadas da tensão de domingo misturavam-se com os risos catárticos e inevitáveis.

O PGM J disse que ia à casa de banho e foi. Não consegue fazê-lo, simplesmente, sem o anunciar. A PGM C está maravilhada com um lápis em miniatura, que a faz evocar e reforçar a espectacularidade dos mini-lápis para colorir que oferecemos às crianças. A mim, incomoda-me o fumo do meu próprio cigarro, que me entra pelas ventas enquanto tento escrever.

Um pensamento aleatório assalta-me momentaneamente:

– Gostava de ser canhota, assim poderia fumar e escrever ao mesmo tempo!

O PGM J regressou, e cá estamos os três, o retrato de sempre.

Já sabemos que está mau, cai-nos tudo das mãos. Estou à espera que alguém escorregue na calçada e me faça rir, ou que alguém sem braços me aponte o caminho certo, só por causa das cenas.

Olham-me silenciosos, com condescendência, até parece que dizer coisas inúteis vindas dos confins do fundo do mar não é um charme que me assiste. Enquanto me lembro de estar atrasada para a tertúlia matinal, cruzo os dedos ao ver passar um daqueles aviões que deixa um rasto de fumo.

Afasto o olhar com desdém e volto a olhar maravilhada para o meu mini-lápis e a folha escrita até a meio.

Isto vai ácido e carregado de humor inevitável, parvoíces seguidas de queixumes e confissões. Regressa-se aos passeios de encostas verdes onde se partem máquinas fotográficas e se toca “Frère Jacques” numa viola desafinada. Apetece rir quando dois de nós se sentam sob o toldo e outro leva com a rajada de vento e de chuva, mantendo-se no mesmo lugar.

A página parece ser a mesma, não fosse a esfera redonda e maldita.

– “ Estou a escrever montes de memórias que tenho convosco” – disse a PGM F, mais palavra, menos palavra, é assim que me lembro, é assim que fica.

A verdade é que queremos mudanças e o tempo passa desconcertante e sem vergonha na cara. Mudanças na linha do tempo, mudanças sérias e radicais.

Chove. Olhos azuis que são verdes, mas que são verde-azulado e outros que são chocolate, enquanto outros só esverdeiam quando se cansam. E a cada gota que cai é um segundo inútil que passa.

Ninguém se ri sozinho, só em tríade e porque existe a Lei de Murphy, que tanto se revela perante os otários.

Otários mesmo. Ficamos sempre à chuva. Um acontecimento só se torna uma memória depois de reflectido.

– “Está bem”.

– “Ah, partiu-se!” – exclama o PGM J.

É isso! Partiu-se.

PGM F

PGM C

PGM J

Carta ao Mundo

fishbreath

 

Queridas pessoas do mundo,

Há algum tempo que vos tenho observado e me espantado com as vossas acções e reacções. Desta forma, julgo que merecem saber um pouco mais sobre mim e sobre as minhas conclusões.

Tenho estado cansada e infeliz. Confusa e desiludida. Algures entre a terra e o abismo e envolvida numa realidade frígida e inexorável. E tudo porque não suporto a fealdade deste mundo e do meu ser. Um mundo de contradições que confunde a minha pobre alma indolente e pouco confiante.

Tenho-vos observado, disse. E constato que são seres ignóbeis e inúteis. Todos vós:

Gente falsa com alma de meretriz que passa por cima de toda a gente para conseguir o que quer;

Gente que se acha um ser superior e matreiro, que na verdade tem um Q.I de uma centopeia com paralisia cerebral. Essa mesma gente que se torna o ídolo da criançada porque nunca quis crescer e se tornou um inútil que precisa da admiração de gente cuja personalidade ainda não está plenamente formada e é fácil de manipular;

Gente que nasceu para meretriz de rua mas sonha em ser de luxo, exibindo um poder que julga ter, conquistado com um abrir de pernas e prefere ter cornos a usar a cabeça para construir uma personalidade digna e real;

Gente que nunca fez nada da vida e acha que sabe muito sobre o mundo. Gente inteligente, de facto, mas cuja prepotência desmerece os outros seres do mundo e o tornam mais um crítico sem sentido;

Gente de gelo, cobarde para assumir os próprios desejos, que odeia aparências e não tem noção que se deixa guiar por elas e cujo orgulho, arrogância e altivez o cega e paralisa. Gente que acha que desistir é melhor que perder a batalha e que a razão é a coisa mais importante a manter, tornando-se inflexível e infeliz. A típica Milady de Cesário:

“Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.”

Gente que era bonita e já não é. Que se deixou corromper pelo mundo e pelo exemplo de ídolos que não são assim tão perfeitos. Ídolos que, na realidade, são gente frustrada com uma falsa aura de felicidade que faz os mais inocentes quererem-na para eles, também. E é uma admiração mútua. O fã que quer ser como o ídolo e o ídolo que na realidade quer ser como o fã e viver através dele. E nisto, tornam-se os dois feios e confusos e perdem a identidade um no outro.

Gente como eu, que não sou mais que ninguém. Impotente sobre a vida e o mundo. Farta de estar farta de estar fartamente farta. Farta deste mundo e desta gente pútrida, farta dos meus próprios defeitos, da minha força aos altos e baixos, em bola de fogo sem foco que explode para dentro e me fere o esófago. Farta de estar triste e não poder fazer nada e, por fim, farta de ser mais uma pessoa estúpida e incapaz de mudar o mundo.

Quanto a vocês, estimo que se f*dam, neste mundo fétido como vocês. Que nos f*de a todos e nem nos paga um copo, porque a vida acha-nos demasiado fáceis para gastar um cêntimo connosco.

Aguardo novidades do mundo e rapidez, que a monotonia entedia-me de morte.

Cumprimentos de ninguém,

Pequena Maldita C

Conhecer a PGM C

PGMC

 

 

Em primeiro lugar, bem vindo sejas tu à Esfera Maldita.

É verdade, os Pequenos Grandes Malditos percorrem a Esfera unidos, sem grande orientação. Viajamos com lupas e observamos, somos todos observadores, uma tríade que se reúne para tirar as teimas entre aquilo que observamos, aquilo que poderá ser obra exclusiva da nossa ilusão e o que pode ser filtrado e reduzido a factos. Uns aparecem para dar a cor e a atitude, outros teimosamente oferecem imagens distorcidas, cuspidas em verdades dementes. Outros, como a PGM C relatam a visão do forasteiro, que vagueia sozinho, quase invisível, tecendo monólogos interiores. Esta forasteira diz-nos o que já sabemos e já sentimos, embora seja ela a dizer-nos que assim o é e leva-nos a questionar porque raio não o assumimos antes dela. É uma afronta à nossa capacidade de nos absolvermos, impunes, do que nos rodeia. Também ela uma fugitiva não divaga, reconhece e coloca de forma transparente as falhas da sua indiferença.

Eu gosto desta PGM C. Tenho-lhe grande estima por assumir a sua natureza esquiva e me permitir perceber a libertação através da eloquência, quando é ela mesma nos seus dias prisioneira da avareza do silêncio.

Tem alma de filósofo, busca a última peça do mundo, por caminhos para uns obscuros, para outros claros como água, numa passividade monumental. Encara-nos de frente, parada no meio da multidão, observando-nos como um deus enfadado.

Não me admirava que fosse levada a passear pelo vento, como uma pena ou folha caída, é leve, feita de ar e fumo. Pesa-lhe apenas o pensamento.

As palavras por ela escolhidas são marcas de unhas na pele. Não deixo de a imaginar revestida de cimento, escrevendo-nos no peito com o dedo, sentindo apenas um sopro no ouvido. Enganadora, subestimamo-la embarcando nas histórias nuas e cruas, até ser tarde demais e nos incomodar o rasto cinzento que nos deixou.

Ela mesmo acredita no eixo do bem e do mal, desempenhando tantas e quantas vezes a mediação entre dois ímpetos desmesurados da Esfera.

Assim se cumpre o meu desejo de vos apresentar a PGM C.

A ti: que comece agora uma leitura mais intimista da desmistificadora. Agrade sempre que te sentires mais… incomodado.

 

Vosso,

PGM J

Conhecer o PGM J

PGMJ

O Pequeno Grande Maldito J é o Fantasma da Esfera. Provoca para nos lembrar, e evapora-se para não ficar.

 O seu tom gozão, familiar e ao mesmo tempo abstracto, firme mas fugaz, pega nas nossas emoções e faz um malabarismo descarado, arrebatando-nos desde o início, para no fim nos deixar suspensos naquilo que esconde e nós queremos saber.

 É um toca e foge; a presença brincalhona e inquieta que nos vem dizer olá da forma que lhe apetece e vai embora sem ouvir a resposta. Vem conforme o génio e não importa se acreditamos no que ele nos diz: crendo nele ou não, ele deixa-nos muito curiosos. Intriga-nos porque quando o lemos, no fim ele já desapareceu; mas rimo-nos da sua insolência e, no fundo,  queremos que ele exista mesmo, que seja tal como escreve.

 O Fantasma tem em si vários génios que disputam o lugar do dia, vencendo sempre o menos provável. Num dia alegra-nos e conquista-nos, e no dia seguinte apresenta-nos uma conta para pagar. Ele é e ele faz, ele chega, conhece-nos, abre-nos a porta, mas o caminho é para ser achado por nós. As palavras são dele, mas a viagem através delas é nossa; nós que escolhamos como e por onde queremos ir! Quando o lemos, viajamos sempre, no sol, na chuva, vestidos de ouro ou encharcados em lama, mas vamos para longe daqui. Enquanto caminhamos sem ele estar, temo-lo na inquietação do que nos atirou para a estrada, pedaços de constatações e pedras de realidade entre pós esvoaçantes de sonho.

 Leva-nos onde queremos e não queremos, conta-nos histórias de um espírito reguila e traquina que vagueia por Lisboa e aparece no papel que temos nas mãos. O Fantasma seria capaz de esperar quase eternamente pelo Verão só para nos roubar o sol apenas por diversão, escondê-lo por umas horas só para ver o caos, os encontrões às escuras e ao frio, e relatá-los com gozo no papiro que encontrasse.

 Espontâneo, cru, atrevido e malvado nos acessos de brilhantismo que brotam assim que escreve; familiar, sarcástico e consciente naquilo que nos sugere, que nos deixa para adivinhar.

 Um fantasma endiabrado que vem dar à Esfera um fôlego profundo para nos agarrar, enquanto apronta e desaparece, rindo-se e divertindo-se, nunca passando sem nos deixar a sua lembrança.

PGM F

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PGMF

 

A Pequena Grande Maldita F, manuseia cuidadosamente as palavras. Ela enleva-nos nas suas aventuras quotidianas e pensamentos catárticos através de um meticuloso uso da palavra, enquanto nos guia até à última gota da sua antiga companheira clepsidra num mundo florido em forma e claro em conteúdo, claro, conciso e descritivo, que nos pinta uma imagem bem sólida ao longo da leitura dos seus textos.

A pequena Grande Maldita, de carácter directo,aberto e objectivo, contrasta da sua própria escrita pela delicada e optimista estrutura que envolve um conteúdo por vezes moralista, como se a sua consciência ganhasse vida e florescesse na sua escrita que se torna feminina e reflexiva, bela e delicada.

No entanto, para quem pensa que a PGMF de todos os dias se mantém adormecida enquanto a sua consciência toma posse, desengane-se. E no meio da Primavera dos seus pensamentos, ela acorda para fazer algum comentário expressivo e familiar, de uma rudeza propositada mas verdadeira que contrasta de forma inteligente com as suas anteriores palavras de cetim e chama directamente o leitor, do transe a que ela anteriormente o levara.

É neste contraste entre delicadeza de forma e objectividade de conteúdo e nas suas temáticas reflexivas, quotidianas e catárticas e por vezes temperada de uma doce nostalgia ou de uma amarga mas reveladora insónia criativa que nasce a literatura da nossa PGMF. Uma dicotomia entre a consciência profunda e escondida e uma vertente quotidiana de uma leveza familiar que tanto contribui para a dinâmica deste blog.

PGM C

A Corajosa Loucura

O que é a coragem? O que faz a coragem? Segundo Nelson Mandela “a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista por cima do medo. “

A verdade e, aquilo que ninguém dúvida é que a coragem é a principal característica de um herói. Os heróis arriscam a vida para salvar outros e executam gestos inimagináveis quando, qualquer comum mortal, acharia que a guerra já estava perdida. Um herói enfrenta, um herói não desiste, seja o que for que o espera no fim da jornada. Isso faz dele um louco? Alguém que não se importa com o futuro, que não valoriza a própria vida? Ou alguém que valoriza demais a vida dos outros? Um idealista que quer mudar o mundo ou alguém extremamente racional que sabe que uma vida perdida é melhor que várias?

Segundo o meu querido, Erasmo de Rotterdam, nascido a 28 de Outubro de 1466, em Rotterdam, claro está: “A loucura é a origem das façanhas de todos os heróis”. Mas, primeiramente, vamos conhecer um pouco este fascinante humanista holandês.

Erasmo era filho ilegítimo de um padre, foi para o seminário e tornou-se monge. Mas desengane-se quem ache que, Erasmo, era um cínico católico como os outros do seu tempo. Erasmo criticava afincadamente o dogma católico e a imoralidade do clero. Como é óbvio, esta posição não agradava à igreja. No entanto, Erasmo não era facilmente derrubável, era forte e tolerante e, ao invés de o tentarem afastar da igreja, foram-lhe oferecidos diversos cargos de poder. Erasmo recusou todos.

Entre as suas obras mais célebres está o Elogio da Loucura, onde defendia a tolerância e a liberdade de pensamento e criticava a Igreja. Um louco ou um homem corajoso? Ambos, diria. Cada herói tem tanto de louco como de corajoso, não fosse a coragem uma total loucura.

Imaginemos esta cena: um autocarro está à beira de cair num precipício. És uma pessoa atlética e capaz. Isto deixa-te com duas hipóteses: saltar da janela e salvar a pele (ou a vida, já que a pele talvez não ficasse em muito bom estado) ou tentar de alguma forma, parar o autocarro?

Vejamos os pensamentos por detrás de ambas as acções. Se saltares do autocarro é uma vida ganha em vez de todas perdidas já que, o autocarro está prestes a despenhar-se e não há nada que se possa fazer para o evitar. Este é o pensamento do comum dos mortais. Na segunda hipótese, porém, o pensamento foca-se na possibilidade de salvar toda a população daquele autocarro: se ficares e tentares pará-lo, todos sobreviverão. Este é o pensamento do herói. O herói sabe que se falhar todos morrerão, inclusive ele próprio, mas ele está determinado a fazer aquele 1% acontecer. Ele é louco o suficiente para acreditar em 1% e apostar nele a sua vida. Ele é louco porque acredita e afasta de si o poder do medo, humilha o medo e as percentagens feitas por matemáticos racionais.

Um herói é corajoso e louco o suficiente para acreditar com toda a sua alma. Ah, a loucura! O que seria da vida sem um pouco de loucura…

Pequena Grande Maldita C