Lilith (Uma música, muitas palavras)

afrontedelilith

 

Cresce-me a luz da dúvida na fronte. Mal me toca a carícia da intuição, que cego me fiz, dançando valsas e cortejos só, à confiança dos sentidos, de olhos fechados, com o fantasma do meu agora reencarnado desânimo. Cresce-me a necessidade de usar palavras. Palavras que silenciara e trocara por adornos de realeza perfurando a pele macia, quente, fugaz, violeta. Palavras trocadas que cimentaram bases de paz. Cresce-me o impulso, empunho suspeitas prontas para me flagelar, suspeitando do meu objecto e da minha suspeita, vocifero as hipóteses que tecem as três bruxas da minha introspecção, que me fazem companhia, alienação, solidão, mania. Afogo-me em retratações, entre cláusulas que assumo para comigo com rigores e temores.

Cresce-me na fronte a sombra da perda, sobre os olhos que procuraram com ambição e não folhearam os capítulos soprados pelo vento pestanejado pela rapidez vigarista de olhos desassossegados. As palavras voam no silêncio de segundos, no desmaio da minha crença. Alço a batuta, em repetido alívio e flagelo, sangro, soo o alarme do descontentamento, largo os uivos da suspeita que me desenlaçaram do sacrifício do orgulho, do suicídio do medo. Findo-me com as palavras que te convocam, que te acusam para me justificar tão inquieto, tão incerto.

Digo apenas que amarias o meu corpo conforme dizes de tua vontade, não amando, amarás outros na rebentação, que és volátil impressionável Vénus e serei eu ardido Vulcano, trabalhando o aço azulíneo para te desbravar as amarras do egoísmo ácido que atiras sobre o meu peito descoberto.

Atravessa-me a fronte, eclipsando a manhã da razão, uma Lilith maligna que me destrona do bom julgamento, em velhas lembranças, na velha cegueira impotente, de amarguras imprevistas. Cumprindo-se o presságio adiantado pela melancolia, farei minhas as lágrimas seguradas de Adriano, pelo fúnebre brilho que se abate no meu olhar afogado pela perda do teu níveo frescor.

PGM J

Desafio: Ilusão

São três as cores que se espalham da outra face do prisma, na face de dentro. São três cores primárias que brilham em brancura. Espelhadas, projectadas e engolidas, escorrem pela laringe e pingam no esófago. São gotas púrpura. São gotejadas pela pipeta para o estômago, que sorri laranja, injectadas para o sangue numa via rápida de eléctrodos chocantes de lima e quimeras, em rápida ascensão. Trespassam o limite, rebentando em oxigénio.

Sai vapor, diluído no ar, sem matizes, som nem exaltações. Toca e humedece, greta os lábios, perfuma o ar parado de fruição.

São três as cores da fruição. Inspiradas e prismadas, são três as cores do branco que ilumina e me guia pela escuridão do corredor pouco percorrido, a inspiração que flecte o músculo flácido que agora se tonifica.

PGM J

Rígel

orion

‘Respira fundo, pelo nariz, enche o ar de pulmões, expande a caixa torácica, prende o ar lá dentro’ – ouço as reticências dela a marcar o tempo, a cadência da inspiração retida e da exalação soprada – ‘e solta agora o ar pela boca, com força’ – ordenou-me, com a mão no meu peito, esvaziando-o como um balão deitado no colchão d’água. É como flutuar, é como tapar-me com cimento, como enterrar-me num sono consciente. Inalei fundo toda a tranquilidade que não conheço. Exalei toda a desarmonia e desordem. Algures na transfusão pausada e cadenciada, na suspensão encontrei yin e na roda viva yang.

‘Concentra-te na minha voz’, lembrou-me, ‘Vou iniciar a contagem decrescente de dez a zero. A cada número, descerás um degrau. Olha à tua volta, vê onde estás. Vês as tuas escadas? Já aí estiveste’. As escadas eram, de facto as mesmas. O mesmo corredor sombrio e limpo, cujas paredes que encolhiam em ângulo agudo para as escadas amarelavam e gretavam, apenas iluminado à minha passagem, à falta de tochas, candeias ou algo tão banal como electricidade. Ao virar o corredor em caracol para as escadas encontro o mesmo brilho azul e difuso, gelo e neve e luar. É por aqui que desço mais e mais para o meu abismo. ‘Dez’, e desço o degrau. Não se sente nada, o gelo é gelo e o túnel forma-se. ‘Nove’, e desço outro degrau. Andei uma vez numa montanha russa na grande feira popular de Viena, onde as carruagens entravam num túnel estreito, a luz apenas mostrava a boca da serpente, para dentro só escuridão. ‘Oito’, desço outro degrau, desta vez com receio de escorregar. ‘Sete’, desço. A imaginação é algo poderoso. Aqui estou eu, representação de mim mesmo no meu subconsciente, nu. ‘Seis’, com um pé ainda no degrau anterior. Estou nu a descer escadas com degraus contados. Arquitectei bem a minha toca, tudo arrumado e funcional. ‘Cinco’, ainda que permaneça uma divisão mórbida da minha consciência, encanta-me. Desço. ‘Quatro’, desço com receio de me esquecer de descer. Mesmo agora ao molesto-me por me permitir trazer medo para casa. Depressa acabo com a pestilência do medo no meu santuário fortificado, onde não há escutas nem privação, apenas segurança e mundivivência. Poder ultrapassar limites de visão e alcance. Perscrutar o universo, projectando-me além da atmosfera e abaixo de mim mesmo. ‘Um’, merda! Três, dois, um, desço. Enquanto desço perco as escadas e caio hirto numa espiral cósmica, translúcida, líquida, clara de ovo e leite diluídos em água e ondas neónicas, boreais e sol.

‘Concentra-te na minha voz, guiar-te-ei’, olhei para cima enquanto caía, olhei para baixo tentando perceber onde ia cair. Ouço-a, estou cá e lá, mas noutro sítio. Querendo, viajei mais além das indicações dela. Escorreguei para os olhos de uma baleia, que me mostravam constelações e mais escuridão do que alguma vez conheci. Um vazio avassalador que reanimou o meu corpo cósmico, sem mãos nem pés, apenas veias e terminais luminosos, sem carne, apenas plasma, um ovo, um embrião na teta que tudo o que existe alimenta. De onde venho ninguém tem lar e no frio onde moram os diamantes do céu terrestre encontro o remédio para a minha amargura de filho abandonado. A esfera é feita de um tecido macio, quente, vivo. Um hemisfério sólido, branco, outro invisível, revelador de uma noite onírica. De dentro surgem figuras sem corpo ou membro, ligadas ao navio, brancas, com os mais profundos olhos negros, duas bolhas negras onde cabem os olhos dos humanos. Quem são? Acariciam-me com ondas de calor, com carinho e saudade e consigo aceder a tantos segredos nos olhos que entram nos meus, consigo intuir a missão que me foi entregue sem consentimento ou permissão. Sou, de um só golpe sem piedade, abortado para fora da nave, caído numa realidade vermelha caótica, de destruição e medo. ‘Não permitirei medo’, penso, emboscado por ventos solares que me elevam e se alojam em frequências nucleares irrequietas, emitindo faixas de luz pelo meu corpo de plasma, ensopando as ramificações que tomo por membros de nano estrelas.

Sou violado pela luz mais dolorosa e justa, elevando-me na atmosfera bélica que vim para derrubar e domar. Na inexistência de som, sentia-me a gritar lamurias de super novas, enquanto sorvo pela boca toda a matéria. Expludo luz de todos os terminais, desfazendo-me em poeiras que reflectem o universo. Irradio explosões de luz em mantos que cobrem a realidade que fui enviado para extinguir. A luz roça os astros circundantes, a luz que sempre trouxe e que se uniu ao concílio dos astros para banir o medo e a miséria. Assim nasci, memória da vitória sobre os limites. Luzindo mais bravo e completo, terminado. Rígel.

Tentação

Tentação

Eis que no meu peito

corroído pela lava

rebentam águas salgadas

banho-me nas furnas

da cravada ilha alva

cuspo de vulcão desfeito.

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Se pedras forem castigos

dados aos tarados nos pelourinhos,

se os demónios forem desiguais

envenando n’Olímpo os gigantes divinais

Abalo com as tuas pedras

o teu templo herético

selo o teu jazigo helénico

c’o horror dos cubistas.

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Prostra os forasteiros,

bebe tu meu mar, o meu sangue.

Por pecados que apenas eu me castigue

ardendo na lava do meu peito.

PGM J

As labaredas do renascimento

jsc

O céu trocou o azul pelo branco

As coisas perderam o encanto

Dos vidros restaram os cacos

Naquele silêncio de fracos

Passaram horas naquela escada

Com a noite veio a geada

E eu de mãos vazias esperava

Por uma sombra que nunca chegava

Cansei-me e levantei o corpo

Que só o corpo restava

O espírito jazia morto

Na dor que o amor agrava

Mas num dia de Inverno

Em que o sol fulminante se rendeu

Bebi as gordas gotas de Inferno

Como um orgulhoso ateu

E a minha alma ardeu de repente

Na paixão que novamente

Me invadia sem pudor

Naquele diurno ardor

Quis ser tudo o que era meu

Que eu merecia o céu

E no paraíso que fechava na mão

Já não temia dor ou solidão

E renasci naquele romance solitário

Naquele canto de café ordinário.

PGM C

Desafio: Crónica de Género

crongen

Estamos longe de ser um país igualitário. O mundo está longe de qualquer igualdade no que se refere ao género.

Género: masculino ou feminino – classificam-nos logo à nascença. A partir daí estamos marcados, como gado, para sempre. Cor-de-rosa para as meninas, azul para os meninos, bonecas para as meninas, carrinhos para os meninos.

Moldam-nos, para encaixarmos na sociedade existente onde só cabe sofrimento e discriminação ao género feminino e se mente o tempo todo, a tentar mostrar que essa discriminação já não existe ou já não é importante. Dizem-nos que as mulheres já estudam, já votam, já têm carreiras de sucesso. Que mais poderíamos querer? Respeito. Falta o respeito, meus caros. Respeito e liberdade.

Dão-nos nenucos para aprendermos a cuidar dos filhos, como se os filhos fossem só nossos, como se a obrigação fosse só nossa. E barbies com belos vestidos para ficarmos sempre bonitas para os futuros maridos. E somos assim traídos pela nossa própria família. E carros e bonecos de guerra aos meninos para aprenderem a serem bestas fúteis mas continuarem a achar que são fortes e imbatíveis.

Dizem-nos para sermos discretas, para termos medo. E temos realmente do que ter medo. O mundo não é feito para as mulheres. Não é seguro andar na rua, não é seguro sair com uma amiga, não é seguro beber demais, não é seguro vestir roupa curta ou decotada. O mundo é um constante estado de alerta para as mulheres. E não só entre homens. Muitos dos seres mais machistas são mulheres.

Ensinam-nos que o mundo é assim e pronto. As mulheres são frágeis e os homens não choram. E toda a gente acredita. Mesmo que argumente veementemente o contrário. Porque está lá implantado desde a lavagem cerebral que nos vão fazendo desde nascença. Então é mais ou menos nisso que nos tornamos mesmo, ainda que uns mais e outros menos. Não temos direito de escolha, está lá, em tudo o que nós fazemos ou pensamos.

Acho especial piada de uma maneira bem triste aos homens que dizem não ser machistas. E depois são capazes de dizer que as mulheres usam decotes para os homens olharem e têm amigos que exibem conquistas e traições. Exibem porque têm para quem exibir. Assim, simples. E quem os ouve é tão machista quanto eles com a agravante de ainda nem terem chegado a um estado de autoconsciência. É como as mulheres que dizem que esta ou aquela é uma “vadia” ou coisas piores. Triste da mesma forma. Mas no caso delas, elas são vítimas e algozes. O sofrimento desta psicopatia social cabe maioritariamente às mulheres.

“Os homens são de Marte e as mulheres são de Vénus”. Não são, mas tornam-se inevitavelmente já que são criados para serem opostos e o homem quase treinado para rir e evitar o suposto sentimentalismo feminino. Consequentemente, com tantas coisas que os separam, homens e mulheres nunca serão felizes juntos. E a taxa de divórcio cada vez maior existe para o comprovar.

PGM C

Desafio “All you need is love”

Dezembro traz mais do que frio e memórias. Dezembro traz-me a memória do teu calor. Dezembro traz de volta o que Janeiro deitou fora. Tenho percorrido com os dedos os caminhos do teu corpo suspensos no ar, contornos onde a poeira assentou. Então, tenho percorrido as mesmas lembranças, mas falta a tua cara. Não me lembro da tua cara. Dezembro tra-la-á de volta.

Pelas ruas só se vê pressa, o ar foge entre os carros, os carris, entre as pernas e os gritos. O ar assobiado pela pressa assalta Lisboa, que exaspera o sentimento rápido, a pressa de chegar a madrugada, a pressa de deixar de sentir, a pressa de adormecer. Com todo este barulho à minha volta, no meio do caos, eu só espero por te poder levar a voar. Num só fôlego poder soprar-nos até ao espaço, na combustão da vontade com que te quero a derreter como rochas na tua lava, soprar-nos para longe, desafiando a gravidade, perfurando a opressão do ar pesado, em câmara lenta, derretendo. Quero morar no espaço, onde as estrelas não são estrelas mas monstros como nós. Quero lá nascer de novo sem saber quem fomos e o que fizemos. Quero lá conhecer apenas a calma de existir e os teus encantos de lava no seio do mais inóspito frio.

Até te trazer de volta, o tempo que destrói a minha fé, conta até zero para poder descolar. Enquanto isso cai mais uma hora sem pressa, e todas as horas representam nada, porque, quando chegares seremos a luz que falta em Dezembro.

PGM J