Nem tudo

NEMTUDO

Nem tudo o que brilha é verdadeiro

Nem tudo o que se vê é real

Nem todo o peixeiro é barraqueiro

E nem todo o moralista é leal

Nem tudo o que dói é amor

Às vezes é só dor

Ou desilusão.

Nem tudo o que pensamos é verdade

E há que confirmar a informação,

Esquecer um pouco o coração

E ouvir a razão e a idade.

Outras vezes basta ver o óbvio

E alimentar a alma de ódio

Há que ter respeito pelos outros

E enfrentar a cobardia

Para não virarmos monstros

É preciso valentia.

Nem tudo o que se sente é puro

Nem todo o pavimento é duro

Nem todos os fins justificam os meios

Mas todas as colheitas dão frutos.

PGM C

Desafio: Ilusão

São três as cores que se espalham da outra face do prisma, na face de dentro. São três cores primárias que brilham em brancura. Espelhadas, projectadas e engolidas, escorrem pela laringe e pingam no esófago. São gotas púrpura. São gotejadas pela pipeta para o estômago, que sorri laranja, injectadas para o sangue numa via rápida de eléctrodos chocantes de lima e quimeras, em rápida ascensão. Trespassam o limite, rebentando em oxigénio.

Sai vapor, diluído no ar, sem matizes, som nem exaltações. Toca e humedece, greta os lábios, perfuma o ar parado de fruição.

São três as cores da fruição. Inspiradas e prismadas, são três as cores do branco que ilumina e me guia pela escuridão do corredor pouco percorrido, a inspiração que flecte o músculo flácido que agora se tonifica.

PGM J

Tentação

Tentação

Eis que no meu peito

corroído pela lava

rebentam águas salgadas

banho-me nas furnas

da cravada ilha alva

cuspo de vulcão desfeito.

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Se pedras forem castigos

dados aos tarados nos pelourinhos,

se os demónios forem desiguais

envenando n’Olímpo os gigantes divinais

Abalo com as tuas pedras

o teu templo herético

selo o teu jazigo helénico

c’o horror dos cubistas.

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Prostra os forasteiros,

bebe tu meu mar, o meu sangue.

Por pecados que apenas eu me castigue

ardendo na lava do meu peito.

PGM J

Desafio “All you need is love”

Dezembro traz mais do que frio e memórias. Dezembro traz-me a memória do teu calor. Dezembro traz de volta o que Janeiro deitou fora. Tenho percorrido com os dedos os caminhos do teu corpo suspensos no ar, contornos onde a poeira assentou. Então, tenho percorrido as mesmas lembranças, mas falta a tua cara. Não me lembro da tua cara. Dezembro tra-la-á de volta.

Pelas ruas só se vê pressa, o ar foge entre os carros, os carris, entre as pernas e os gritos. O ar assobiado pela pressa assalta Lisboa, que exaspera o sentimento rápido, a pressa de chegar a madrugada, a pressa de deixar de sentir, a pressa de adormecer. Com todo este barulho à minha volta, no meio do caos, eu só espero por te poder levar a voar. Num só fôlego poder soprar-nos até ao espaço, na combustão da vontade com que te quero a derreter como rochas na tua lava, soprar-nos para longe, desafiando a gravidade, perfurando a opressão do ar pesado, em câmara lenta, derretendo. Quero morar no espaço, onde as estrelas não são estrelas mas monstros como nós. Quero lá nascer de novo sem saber quem fomos e o que fizemos. Quero lá conhecer apenas a calma de existir e os teus encantos de lava no seio do mais inóspito frio.

Até te trazer de volta, o tempo que destrói a minha fé, conta até zero para poder descolar. Enquanto isso cai mais uma hora sem pressa, e todas as horas representam nada, porque, quando chegares seremos a luz que falta em Dezembro.

PGM J

Bloqueio

bloqueio

Pedem-me para escrever. Não posso. Permitam-me a petulância de me dizer num bloqueio artístico. É pomposo, soa bem e ninguém leva a mal. É um carnaval autêntico.

Mas não. O meu bloqueio “desapalavrado” está mais para manicómio que para estrelato. As palavras cessaram. É tudo um complô. Castiguei umas quantas que não param de querer fugir e pronto, veio a solidariedade adolescente e mais nenhuma quis sair em condições. Rebeldes!

Agora é assim, sou um tédio. As palavras sempre às voltas na minha cabeça como as estrelinhas dos desenhos animados quando eles batem com a cabeça. E eu, vil e cruel, não as deixo sair. E elas sempre lá a não darem espaço às outras, que até se escondem, revoltadas com a minha impiedosa atitude. E não sai nada, é um quase, uma bala que não sai do cano.

Tento desembaraçar-me do assunto constante mas, por mais que o amarre, oiço-lhe a voz aguda nos tímpanos e quem fica amarrada sou eu, naquele canto de sereias. Empalideço e cala-se-me a voz. Pareço um cadáver esquizofrénico. Ou esquizóide, só para me fazer de entendida nestas coisas das ciências para avariados do pimpanico (perdoem-me o neologismo saloio). Estou de todo!

Mas as palavras malditas não me vencerão. Sei que são flechas atiradas, que uma vez ditas traçam destinos mais ou menos ensanguentados mas a sua fatalidade e importância não me deterá de castigar as caprichosas. Elas que aguardem! Já chega de congestionamentos no meu cérebro, trancinhas com os meus miolos e sons irritantes aos meus ouvidos. As reguilas não perdem pela demora… Vejo-as escapulirem-se, medrosas, pelas estradinhas de carne. Mas sabem o que vos digo? Podem fugir mas não se podem esconder e em breve também o vão saber.

PGM C

’tou a ver

redoma

– Não gosto muito de invasões barulhentas – disse, num tom de puro fastio -, já o disse antes e volto a repetir com a mesma veemência.

– De onde veio essa? – pergunta, recostada na cadeira, sonolenta do longo silêncio decorrido, quebrado pela minha observação.

Expliquei-me e ela ouviu… pelo menos parcialmente, apenas observando o movimento dos meus lábios. ‘Cada palavra parece decorada, ele não vacila’, pensa ela, ‘aquilo deve ter estado a ruminar ali dentro, à espera de sair’. Falava sem interrupções e projectava o vago olhar para a cabine telefónica, desenrolando o monocórdico monólogo.

‘Grande monólogo que para ali vai!… É suposto eu perceber ou ele acha que faz sentido? Há-de fazer algum, lá no meio da palha…’

Encarava-me, a expressão era de total passividade, ausente, expressão de alguém que desligou o cérebro para recalibrar.

– Mas vê se percebes o que te digo, é mesmo como o episódio da rainha feiticeira e os Templários.

‘Epá, espera lá que vem aí da boa!’ pulou na cadeira e inclinou-se na mesa para ouvir o resto.

– Hm, pois… Como… Como?

– Então – agora focando-me nela -, houve muitas guerras nos episódios das Cruzadas, e eles simplesmente invadiam os territórios onde sua Divindade ainda não era sabida e proclamavam as terras. O que me espanta nestes sujeitos é atitudezinha de criança possessiva, sabes, como quando os nossos putos berram e se atiram ao chão e não nos deixam usar a sanita porque de repente acham que é só deles, embora usem fraldas, ou como quando se apoderam do comando da tv, ou das chaves do carro. Eles só querem o que não é deles. É o mesmo com os Templários e a avidez da Cruzadas.

– Hm, pois – sorvendo o resto do café.

– Tanto invadiram que um dia chegaram à terra da tal feiticeira – interrompeu-me – Espera! Mas qual feiticeira? Não me lembro de nada sobre feiticeiras nas Cruzadas… – Esta acho que era uma rainha deusa da Síria, ou assim… É bem capaz, aquela gente não brinca. Enfim – continuei -, eles chegaram lá, acamparam, trotaram até à dita feiticeira e foi logo “Saia daí que isto agora é nosso”. Como disse, houve muitas guerras, mas com esta não tinham hipótese, foram vaporizados, mas não sem antes verem  um bocado das profundezas do Inferno. Quando é assim, esquece lá o Cavaleiro Templário e a supremacia da palavra do senhor, quem pôde escapar não parou de correr. É assim que me sinto quando se intrometem no meu sossego.

Ficou estúpida a fitar-me com dúvida e desatou a rir.

– Ha! Tu és demais!

– Então porquê? – franzindo face à condescendência – Com essa figura triste sabes quem me fazes lembrar?

– A tua mãe? – disse, já azeda com a conversa.

Não reagi ao ataque directo e prossegui.

– Não. Fazes-me lembrar aquela criatura Macbeth. Onde quer que fosse envenenava tudo e todos, caso não tivessem já sido envenenados.

– Mas tu sabes do que falas?

Silenciei-a com o gesto de um dedo.

– Essa mesma Macbeth, na sua vil perfídia, era bem capaz de me dar uma sopa envenenada e roer-se toda de antecipação até dar a primeira colherada, e, caso estivesse a demorar muito a lá chegar dir-me-ia algo como “Não comes a sopa? Está a ficar fria”. Se oferecesse resistência então dir-me-ia ” É que já está envenenada, mais vale agora enquanto está quente”. É essa a mesquinhice que trazes sempre contigo. A minha mãe sabe cozinhar.

– Acaba lá de fumar e vai trabalhar, é disso que estás a precisar.

Calma Inquieta

calmainquieta

‘Lá está ele a olhar para nada’, pensou ela ao se deparar com aquele homem ausente, de novo, estático no meio do corredor. ‘Estás à procura de alguma coisa?’, perguntou-lhe, pondo-se de frente para ele. Virou-se para ela, lançando um olhar agora atento para o fundo do corredor, não reparando sequer na sua  presença. Algo o chamou à atenção, e, pelos vistos, não foi a voz interrogativa. Alguém tinha entrado e a expressão vaga enrugou-se. ‘É tão transparente e tão misterioso, ridículo.’

Sentia simpatia por ele, sentia até mais curiosidade que simpatia. Para um homem tão falador como ele, é estranha tamanha ausência. ‘A não ser que recebas correio no escritório, não há ali nada para ti! Era bom que fosse o nosso almoço…’ – suspirou, sacudiu o cabelo solto, olhou-o de soslaio – ‘Acorda, pá!’ – empurrou-o com a ponta dos dedos, tentando sacar alguma reacção. ‘Sim, está tudo bem. Estava à espera de… sei lá eu de quê… Vais almoçar?’ – respondeu-lhe, saindo do aparente transe. ‘Sim, vou agora’ – avançou para a varanda – ‘mas vou primeiro lá fora’ – tirando um maço do casaco e estendendo-lho – ‘queres vir?’. ‘Já vou ter contigo.’- disse com firmeza. ‘Deve ser grave, para ter saído do cubículo dele…’ – pensou – ‘e que olhos são aqueles? Se não o conhecesse bem até diria que tinha cheirado… ou que tinha chorado… mais a primeira que a segunda hipótese, mas enfim’ – e riu-se com a sua constatação, soltando um bafo sonoro, disforme e trapalhão, tentando esconder o riso com a mão. Começava a fazer frio, lá fora, acariciou os braços procurando aquecer-se, deu um último bafo, atirou o cigarro, lançou a cabeça para trás e soltou o fumo vagarosamente, soltando um pouco de cansaço e um pouco de desespero. Viu-o passar e foi ao seu encontro, na esperança de ter a atenção dele, sem sucesso.

Voltou algo acelerado ao cubículo, sentou-se, pôs os pés em cima da mesa com brusquidão, e espreguiçou-se, deixando cair os braços relaxados ao lado do corpo quase deitado na cadeira. ‘Relatórios; listas; e-mails; processos; falar com o gajo dos pagamentos’ – enumerou mentalmente. O tecto estava manchado pela humidade. O tecto estava manchado e apenas esse pensamento roubava a sua atenção. Observando os desenhos nos cantos da sala, apenas deixando-se consumir pela insignificância dos desenhos da humidade, assim se deixou ficar. Não dormiu, não sonhou, não fantasiou, apenas permitiu que a sua cabeça deixasse de funcionar. Afinal de contas é esse o seu mal, levar os pensamentos à exaustão. ‘Não sei se deva acordar ou dormir,’ – confessou – ‘não sinto nada do que está à minha volta. É tudo tão igual e imutável. É tudo tão igualmente inefável, não faz lá muito sentido. Mais do que uma vez me perguntei, só esta manhã, se estaria num profundo estado de sono, ou coma… Isso justificaria esta confusão e apatia… este terror paralisante.’ – ainda encarava o tecto, boquiaberto, deslizando, flácido, pela cadeira. A falta de vida no olhar agravava-se nitidamente, a cada dia. Tentava em vão acordar, repetidamente, no sítio onde adormecera há muito, muito tempo.

Deslizou da cadeira, caindo de frente, batendo com a cara no chão, dormente, incapaz de amparar a queda, com uma perna caída e outra em cima da mesa. Um espetáculo deprimente, se me permite dizê-lo. Que infelicidade a de viver inconscientemente. Que infelicidade a de viver um sonho sem experimentar o impossível.

PGM J

Já não há palavras

Volto ao local do crime como um assassino em série. Vejo o comboio partir à minha frente. Fico à espera. Olho as carruagens que circulam nos carris como se fossem para o horizonte, como se fossem e não voltassem.

Já não há mais palavras. Esgotaram-se em discussões, esgotaram-se em frustrações. Resigna-se no meu peito a dor inútil que me transborda. Sei as palavras de cor e as teimosias, de que serve repetirmos discussões? De que serve gastar palavras em vão e fazer transbordar mais o rio que me habita o peito?

Não há nada a fazer quando as palavras acabam. Vejo o comboio afastar-se lentamente de mim, enquanto prego os olhos ao chão. Tenho meia hora de espera em frente mas, hoje, a espera parece-me tão curta e aconchegante que o tempo parece não existir.

Vem ter comigo um homem, velho e estranho. Pergunta-me até onde dá o L12 para o lado de Sintra. Digo-lhe que acho que dá mesmo até Sintra, ele reclama, diz que não e vai embora, perguntar o mesmo a todas as pessoas da estação com o seu rádio sem fones. Não argumento, sempre ouvi dizer que aos malucos diz-se sempre que sim e hoje é dia de evitar conflitos. Dia, mês, meses, é tudo o que tenho feito. É o que resta quando as palavras acabam. Evitar conflitos, para a água do rio não transbordar.

A seguir, um rapaz estrangeiro pede informações para ir para Sintra a um grupo de pessoas ao meu lado. Eis alguém que não me veio chatear num dia que realmente não me apetece falar com pessoas. Solidariedade dos 20’s, certamente. Obrigada, senhor estrangeiro na casa dos 20. Mas surge-me então outra questão, o que raio quer tudo ir fazer a Sintra? Ainda para mais numa estação onde o comboio vai para Mira-Sintra Meleças e não exactamente para Sintra.

Não importa, nada importa. Apanho finalmente o comboio e, de costas, vejo toda a paisagem ir embora, ficar para trás. Até o sol ia embora gradualmente. Sinto que as coisas irão voltar à estaca zero. Não dá mais para evitar o inevitável.

Falta-me o autocarro, mais uns 10 minutos de espera. E, novamente, estou eu muito bem a tentar ser invisível e um homem vem ter comigo. Diz-me para avisar a filha para sair em Carenque, que ela vai ter com a mãe e pode-se distrair e deixar passar a paragem. Raio de pedido para se fazer a um estranho. Especialmente quando a filha estava do lado oposto da paragem, com um ar pouco preocupado e, ainda mais, sendo este um pedido feito a alguém que não gosta e está farta de crianças e num dia pouco agradável. Será que ninguém percebe que não quero comunicar com ninguém?

Caros colegas humanos, já não há palavras. Lamento, mas esgotou-se a fonte. O rio vai transbordar inevitavelmente e o comboio não irá voltar um dia. Um dia tão próximo. Já não há nada a fazer, não vale a pena. As palavras morreram nos nossos colos e apodrecem…

 

Pequena Grande Maldita C

 

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lou·co

Adjectivo e substantivo masculino

1. Que ou quem perdeu a razão; que ou quem apresenta distúrbios mentais. = ALIENADO, DEMENTE, DOIDO, MALUCO, TOLO

2. Que ou quem tem um comportamento absurdo, exagerado, contrário ao bom senso ou ao que é

considerado razoável. = INSENSATO, MALUCO, TEMERÁRIO, TOLO

Adjectivo

3. Que é considerado fora do habitual. = ABSURDO, ESTRANHO

4. Que revela falta de sensatez. = DOIDO, IMPRUDENTE, MALUCO ≠ PRUDENTE, RAZOÁVEL

5. Que está fora de si, descontrolado. = DESNORTEADO, DOIDO, MALUCO, PERTURBADO, TRANSTORNADO, 

TRESLOUCADO

6. Que é excessivo. = DESMESURADO

7. Que está dominado por sentimento de grande paixão. = APAIXONADO, ARREBATADO

“louco”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013

Para que não restem dúvidas, que a minha loucura não me faz louco já eu sei. A loucura é a qualidade do louco, mas as teias do meu pensamento são sensatas, eu é que gosto de limpezas. O esforço da loucura não detém a sensatez. Apenas rasgos de imprudência e impudor brincam com as bases da minha normalidade (qualidade do que é normal). Ainda assim não agitam águas. Só brinco. Não são ácidos: é a fatalidade, o aborrecimento. Não há nada, deliro a pisar solo minado, rio-me. A gente ri-se. Não há ligações que se façam ou desfaçam.

Isto cresce e entranha-se de uma maneira que os meus pensamentos mais íntimos começam a intrometer-se na realidade, e já não estou tão separado da minha cabeça. Apercebo-me da transição quando me sinto mais livre, sem saber o porquê. Mais livre, ou mais confortável. A minha energia vital foca-se na concretização da minha identidade, na minha satisfação e na minha paz. Afirmo-me sendo.

Sou um invisível, pois sou. Que merda de coisa para se ser, dirá quem pensa poder escolher o que é. Ser triste é pior…

 

Pequeno Grande Maldito J