A Verdade

A verdade. Ninguém aguenta a verdade. Nem a nossa nem a dos outros. A verdade ofende, espeta, crava a ferro e fogo. Tatua na alma a realidade rochosa do dia-a-dia. A verdade perturba quer seja ou não dita. É necessária, é visceral até, mas feia e chuvosa.

Apontam-nos defeitos, criticam-nos e nós atacamos como leões feridos atrás de um rochedo. Atacamos porque nos estão a atacar, porque nos sentimos indefesos perante as mentiras que criámos e em que acreditamos. As ilusões. As ilusões são verdades que não o são. São as vontades da alma que a realidade não traduz. Então inventamos aquilo que para nós faz sentido, aquilo que para nós é real. E vem alguém e diz-nos a verdade, assim à queima-roupa, sem nem nos pagar uma cerveja primeiro. É doloroso e assustador. A pessoa que enfie a verdade de onde ela saiu. E já agora leve a verdade e a lama dos dias chuvosos com ela.

Ah mas é fulcral, não dá para viver num mundo de mentiras, não dá para acordarmos envoltos num novelo, presos pela mente, atados de coração e vísceras. Não dá! Não dá para fingir que não existe mundo, não dá para andar no meio da estrada e fingir que não há carros. É aí que a verdade vem, límpida e cítrica, natural como a chuva e sólida como um rochedo. A verdade ilumina, cura, fere e mata. É feia e translucidamente bela na sua pureza e brilho.

E às vezes bebemos ilusão o dia todo, embriagamo-nos dela, rogamos pragas aos mensageiros inoportunos da verdade e, no dia seguinte, de ressaca, atiramos pedras à ilusão, culpamo-la pelas guerras e pelo mau tempo e até pela velhinha da mercearia ter perdido os dentes. E lá vem a realidade dar-nos chá à cama e lições de moral. E nós, com olhar de cachorros e vergonha nas pupilas, prometemos que não mais vamos beber demais, que não mais a ilusão entrará no nosso copo. E no dia seguinte tudo se repete, como os dias se repetem no calendário.

 

Pequena Grande Maldita C

Rain Dogs

  O cigarro aborrecido começa a encolher, consumido pela viagem da mente à lembrança de há horas atrás. Aconchega-se no alento do gin que vai sucumbindo no copo, dançando com o gelo. Das colunas da aparelhagem voa, a rasgar o ar, a melodia que introduz a voz grave e rouca emparelhada com o tabaco e o álcool da festa solitária. Funde-se com o fumo que sai lentamente pela janela aberta, ao encontro da noite que já vai avançada.

  “Outside another yellow moon…”

  Caraças, que viagem! Lá em baixo, na rua, deambulando pelo passeio, pela estrada, por entre os carros que passam, pelo poste do bêbado profeta, pela porta do bar.

  “Oh, if I was the one you chose to be your only one…”

  A voz gutural e arranhada canta o delírio, a realidade presente contra o desejo, a mescla intermitente da consciência a pulsar entre as nuances da inconsciência.

  “Can’t you hear me now? / Can’t you hear me now?”

  A luz do candeeiro, o único foco luminoso na rua. A saia a esvoaçar, a gravata desengonçada, com o nó desfeito, os pés descalços ora no alcatrão, ora na calçada, a correr, a dançar. Os sapatos nas mãos que não se dão, as gargalhadas nas vozes embriagadas, o toca e foge sem tocar nem fugir.

  “Will I see you tonight / On a downtown train?”

  O cinzeiro está cheio de beatas de abandono. O gelo do copo, da embriaguez quente, vai derretendo, girando, esmorecendo. Os lençóis revoltos começam a secar e ele não olha; a cadeira de baloiço de frente para a janela, de costas para a cama. Caem-lhe pingas de água e de gin no peito nu, e ele deixa escorrer, indiferente. Fuma aquele cigarro que fumega de frustração, expira a baforada desolada da dúvida furiosa de todos os dias. Manda o fumo à lua, pela janela, sob a qual, horas antes, viajou.

   Quer ir buscá-la, àquela que o encontra e o cativa todas as noites, a da saia esvoaçante que depois de o conquistar, desaparece.

  “I know your window, and I know it’s late / I know your stairs and your doorway…”

  Mas é lá em baixo, na rua, perto dos carris, que se encontram sempre. Andam pela rua fria no calor da loucura que se desenrola noite após noite. Todas as noites se encontram para no fim se voltarem a perder. Irão ver-se na noite a seguir? Nunca sabem, porém não param. Se o quisessem, não conseguiriam. O que a razão manda parar e ocultar, o corpo denuncia.

  “Every night…”

   Volta a encher o copo, o cigarro a mirrar. A música, a voz nua de todas as noites.

  “…Every night is just the same”

   Perdem-se, vezes sem fim. Um no outro. Um do outro. E ela torna a desaparecer.

  “Will I see you tonight / On a downtown train?”

   Apaga o cigarro e acende outro. Estica o braço até à aparelhagem e recomeça a mesma música, a voz de carvão a arranhar o ar.

  “Outside another yellow moon…”

Pequena Grande Maldita F

Ego Maldito

Egoísta
Egoísta

Andava eu pela feira da ladra, num Sábado de manhã nada bem planeado, a ver bonecas sujas à venda, ouro por cinco euros, vinis riscados e grafonolas que faziam um vistaço, quando olhei para uma pilha do que pareciam ser manuais escolares. H-xei-me e descobri edições de 2008/2009 da Egoísta, e fiquei de olhos em bico. Vasculhei e vasculhei, folheei todas as revistas, e lá encontrei a minha cara. Não estava lá a última edição Artistas que realmente esperava poder encontrar, mas dei dois euros pela edição Terra, que não fica em nada atrás da outra. Sempre quis comprar uma, mas sempre me faltou o dinheiro.

Escrevo isto porque a Egoísta, desde que me foi mostrada, criou em mim uma grande vontade, da qual apenas há pouco tempo me apercebi, de me aventurar pelo mundo da edição, da escrita criativa (em mim tão reflexiva), da fotografia conceptual, da arte e misturar tudo para criar um álbum sólido de cultura e refrescar um público saturado. Para além disso, ia fazer maravilhas por mim, trabalhar e dar a ver a ganhar 17,95 euros por álbum. A Egoísta é mais que uma revista, é um álbum cultural.

Enfim, comprei o álbum e folheei-o, e viajei. Desde esse fim-de-semana que não escrevia nada, até agora. Não sei, andei a fotografar e à procura de algo. Tenho andado ocupado a concretizar ideias e desejos meus, que arrastava aos anos, e esta vontade cresce tanto dentro de mim que, pela primeira vez, sinto que sei o que quero fazer da minha vida com máxima satisfação e gozo. Não dou por mim a querer fazer o que já está a ser feito, apenas explorar as profundezas do que faço e encontrar a mensagem. Poderei ser Grande Maldito com um pequeno demeanor (passo a expressão), vivendo em pleno medo de não poder experimentar tudo, nunca parando. Quero tanto a minha vida para já, ou mesmo para ontem, que fico sem fome nem sono.

Um grande viva à Egoísta e à Inútil! Recomendo vivamente. Procurem na terceira barraquinha da rua da esquerda, depois do mercado, ou nos casinos de Lisboa e Estoril.

Bolinho

1  2  3  4  5  6  7  8  9  10  11  12

As ideias de decotes subidos,

Rapunzel, atira-me a tua tromba!

Tubos de escape entupidos.

Brinca à bricolage à janela.

Contos de fadas corrompidos.

Espalha vinagre na sarna

e tornam a baixar

sonhos de arroz e recompensas,

as ideias levantam a perna e a saia.

Não é água, é luz no aço…

Não, é um can can!

Engole bagas com bagaço e diz adeus,

é um jive da mente,

que se foi o café e o licor.

Dançam na cabeça, rodopiam e saltitam

a tremer de medo da água

Ideias trancadas, sem tubo de escape.

Voam verdes canas,

as chávenas tilintam aqui ao lado

e partem-se pedras pretas.

Acabou-se o café, já não podes comer o bolo

com gemada de ovos de crocodilo.

– Começa tu.

– Não como ovos crus.

PGM

Aquelas tretas que não levam a lado nenhum

As crises de inspiração, por incrível que possa parecer, também podem ser um ponto de partida para fazer efectivamente qualquer coisa, nem que seja disparate. As crises de inspiração e café. Ou um cházinho, não vá o café fazer os nervos tecê-las e surgir uma produção inquieta. Era chato!

Isto, porque uma inspiração nervosa não é um bom presságio para uma caneta sedenta de escrita ou para um espírito danadinho para mudar o mundo. Ou para divagar sobre uma hipotética regra de uso de uma liberdade em bruto (tenho dado por mim a pensar estupidamente nisso). O problema é que demasiada informação e uma considerável dose de estupidez só podem espoletar um resultado perigosamente absurdo.

Existindo uma regra que nos dissesse para termos liberdade em bruto, o mundo seria caótico. Seria uma imposição, deixando assim de ser liberdade. Estaríamos condenados a ser livres, livres por obrigação, e enquanto uns abusariam disso, outros rebelar-se-iam, só pelo simples (ou gravemente complexo, dependendo da perspectiva) facto de ser uma regra.

   Olha agora, só sou absurdamente livre se eu quiser!

Os rebeldes contra a liberdade em bruto estariam, portanto, a exercer livremente o seu direito a decliná-la, a contestá-la. Contraditório, não é? É aqui que esta ideia revela a sua índole traiçoeira e isto começa a ser uma grande confusão. Uma perspectiva: a liberdade em bruto dar-nos-ia jeito, subsidiariamente, porque às vezes queremos simplesmente disparatar sem sermos reprimidos. Sem ouvir o grilo falante. É que acontece sentirmo-nos a transbordar de vontades, revoltas e ideias e não termos doseador; é querer ousar, ver, analisar e ter resposta para tudo ao mesmo tempo e, mesmo antes de sabermos por onde começar, já os alarmes da contenção (similares aos olhares das nossas mães quando éramos pequenos e estávamos a tramar alguma) estão a disparar automaticamente, mascarados de uma moral duvidosa, mais conhecida pelo seu ilustre pseudónimo: politicamente correcto (o olhar da mãe subentendendo um “nem te atrevas”, quando no fundo nos estava a achar piada, topam?). É mais ou menos como quando, também em pequenos, dizíamos a uma velhota “és velha”, e os nossos pais nos repreendiam (a rir) “então, isso não se diz!”, quando é do conhecimento geral que uma pessoa velha é velha. A coexistência politicamente correcta é, portanto, mais ou menos como o Carnaval.

A hipotética questão da liberdade em bruto, apesar de falível e até contraditória, não é tão superficial quanto parece, e tentar explicá-la simples, concisa e até inocentemente torna-se mais fácil (as histórias da nossa infância são bodes expiatórios perfeitos!), mas há-de haver sempre uma ponta solta.

A liberdade em bruto dar-nos-ia a rolha que se enfiaria na boca do politicamente correcto. Cada um diz e faz o que quer e os outros que se lixem (isto é a teoria), mas se o pudéssemos fazer sem, pelo menos uma vez na vida, pensarmos como pessoas que vivem em sociedade, e esquecer que existe a necessidade de ter modos (isto é a prática, e nada tem em comum com o politicamente correcto), não era tentador? Só para ver como era?

Quero exercer livremente o direito ao mau feitio. Quero, por exemplo, mandar as simpatias matinais, pedidos de desculpa e lamentos para um determinado sítio (nunca lá fui, mas sei que existe). A liberdade em bruto permitir-me-ia isso, pois as rolhas estariam enfiadas no sítio certo.

– Bom diaaa! .

Por exemplo. É que o “bom dia” naquele trautear irritantemente automático, forçado e chato logo de manhã funciona como o “bom resto de fim-de-semana!” num domingo já à tardinha, em plena mini-depressão-pré-Segunda-feira. Não é saudável.

– Desculpa lá, então.

Outra de mandar à fava. O “desculpa” só porque é bonito, só para ceifar o mau humor alheio, que está a incomodar e a cair mal. Nesta situação, a liberdade em bruto deixar-me-ia ripostar, sem qualquer problema, um “olha, vai pastar e leva as desculpas contigo!” assim, simplesmente, sem consequentes remorsos (estou a ver os olhos da minha mãe, e estão a censurar-me, a chamar-me malcriada).

Isto é demasiada informação para o cérebro processar e organizar, e eu sou um zero à esquerda (e à direita, e em todas as direcções) no que diz respeito à organização. É também por isto que as crises de inspiração acontecem, até o cérebro é politicamente (in)correcto, está demasiado formatado.

A liberdade em bruto é então utópica, respira apenas o oxigénio que a imaginação e a frustração lhe fornecem esporadicamente, e manifesta-se somente em estados de estupor nervosos.

– Lamento, a sério.

– Deixa-me!

– Levanta mas é esse cu e vai beber um café, que enquanto vais e vens, não chateias.

Definitivamente, o chá não muda nada.

Pequena Maldita F