Carta ao Mundo

fishbreath

 

Queridas pessoas do mundo,

Há algum tempo que vos tenho observado e me espantado com as vossas acções e reacções. Desta forma, julgo que merecem saber um pouco mais sobre mim e sobre as minhas conclusões.

Tenho estado cansada e infeliz. Confusa e desiludida. Algures entre a terra e o abismo e envolvida numa realidade frígida e inexorável. E tudo porque não suporto a fealdade deste mundo e do meu ser. Um mundo de contradições que confunde a minha pobre alma indolente e pouco confiante.

Tenho-vos observado, disse. E constato que são seres ignóbeis e inúteis. Todos vós:

Gente falsa com alma de meretriz que passa por cima de toda a gente para conseguir o que quer;

Gente que se acha um ser superior e matreiro, que na verdade tem um Q.I de uma centopeia com paralisia cerebral. Essa mesma gente que se torna o ídolo da criançada porque nunca quis crescer e se tornou um inútil que precisa da admiração de gente cuja personalidade ainda não está plenamente formada e é fácil de manipular;

Gente que nasceu para meretriz de rua mas sonha em ser de luxo, exibindo um poder que julga ter, conquistado com um abrir de pernas e prefere ter cornos a usar a cabeça para construir uma personalidade digna e real;

Gente que nunca fez nada da vida e acha que sabe muito sobre o mundo. Gente inteligente, de facto, mas cuja prepotência desmerece os outros seres do mundo e o tornam mais um crítico sem sentido;

Gente de gelo, cobarde para assumir os próprios desejos, que odeia aparências e não tem noção que se deixa guiar por elas e cujo orgulho, arrogância e altivez o cega e paralisa. Gente que acha que desistir é melhor que perder a batalha e que a razão é a coisa mais importante a manter, tornando-se inflexível e infeliz. A típica Milady de Cesário:

“Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.”

Gente que era bonita e já não é. Que se deixou corromper pelo mundo e pelo exemplo de ídolos que não são assim tão perfeitos. Ídolos que, na realidade, são gente frustrada com uma falsa aura de felicidade que faz os mais inocentes quererem-na para eles, também. E é uma admiração mútua. O fã que quer ser como o ídolo e o ídolo que na realidade quer ser como o fã e viver através dele. E nisto, tornam-se os dois feios e confusos e perdem a identidade um no outro.

Gente como eu, que não sou mais que ninguém. Impotente sobre a vida e o mundo. Farta de estar farta de estar fartamente farta. Farta deste mundo e desta gente pútrida, farta dos meus próprios defeitos, da minha força aos altos e baixos, em bola de fogo sem foco que explode para dentro e me fere o esófago. Farta de estar triste e não poder fazer nada e, por fim, farta de ser mais uma pessoa estúpida e incapaz de mudar o mundo.

Quanto a vocês, estimo que se f*dam, neste mundo fétido como vocês. Que nos f*de a todos e nem nos paga um copo, porque a vida acha-nos demasiado fáceis para gastar um cêntimo connosco.

Aguardo novidades do mundo e rapidez, que a monotonia entedia-me de morte.

Cumprimentos de ninguém,

Pequena Maldita C

Conhecer o PGM J

PGMJ

O Pequeno Grande Maldito J é o Fantasma da Esfera. Provoca para nos lembrar, e evapora-se para não ficar.

 O seu tom gozão, familiar e ao mesmo tempo abstracto, firme mas fugaz, pega nas nossas emoções e faz um malabarismo descarado, arrebatando-nos desde o início, para no fim nos deixar suspensos naquilo que esconde e nós queremos saber.

 É um toca e foge; a presença brincalhona e inquieta que nos vem dizer olá da forma que lhe apetece e vai embora sem ouvir a resposta. Vem conforme o génio e não importa se acreditamos no que ele nos diz: crendo nele ou não, ele deixa-nos muito curiosos. Intriga-nos porque quando o lemos, no fim ele já desapareceu; mas rimo-nos da sua insolência e, no fundo,  queremos que ele exista mesmo, que seja tal como escreve.

 O Fantasma tem em si vários génios que disputam o lugar do dia, vencendo sempre o menos provável. Num dia alegra-nos e conquista-nos, e no dia seguinte apresenta-nos uma conta para pagar. Ele é e ele faz, ele chega, conhece-nos, abre-nos a porta, mas o caminho é para ser achado por nós. As palavras são dele, mas a viagem através delas é nossa; nós que escolhamos como e por onde queremos ir! Quando o lemos, viajamos sempre, no sol, na chuva, vestidos de ouro ou encharcados em lama, mas vamos para longe daqui. Enquanto caminhamos sem ele estar, temo-lo na inquietação do que nos atirou para a estrada, pedaços de constatações e pedras de realidade entre pós esvoaçantes de sonho.

 Leva-nos onde queremos e não queremos, conta-nos histórias de um espírito reguila e traquina que vagueia por Lisboa e aparece no papel que temos nas mãos. O Fantasma seria capaz de esperar quase eternamente pelo Verão só para nos roubar o sol apenas por diversão, escondê-lo por umas horas só para ver o caos, os encontrões às escuras e ao frio, e relatá-los com gozo no papiro que encontrasse.

 Espontâneo, cru, atrevido e malvado nos acessos de brilhantismo que brotam assim que escreve; familiar, sarcástico e consciente naquilo que nos sugere, que nos deixa para adivinhar.

 Um fantasma endiabrado que vem dar à Esfera um fôlego profundo para nos agarrar, enquanto apronta e desaparece, rindo-se e divertindo-se, nunca passando sem nos deixar a sua lembrança.

PGM F

A Corajosa Loucura

O que é a coragem? O que faz a coragem? Segundo Nelson Mandela “a coragem não é a ausência de medo, mas o triunfo sobre ele. O homem corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que conquista por cima do medo. “

A verdade e, aquilo que ninguém dúvida é que a coragem é a principal característica de um herói. Os heróis arriscam a vida para salvar outros e executam gestos inimagináveis quando, qualquer comum mortal, acharia que a guerra já estava perdida. Um herói enfrenta, um herói não desiste, seja o que for que o espera no fim da jornada. Isso faz dele um louco? Alguém que não se importa com o futuro, que não valoriza a própria vida? Ou alguém que valoriza demais a vida dos outros? Um idealista que quer mudar o mundo ou alguém extremamente racional que sabe que uma vida perdida é melhor que várias?

Segundo o meu querido, Erasmo de Rotterdam, nascido a 28 de Outubro de 1466, em Rotterdam, claro está: “A loucura é a origem das façanhas de todos os heróis”. Mas, primeiramente, vamos conhecer um pouco este fascinante humanista holandês.

Erasmo era filho ilegítimo de um padre, foi para o seminário e tornou-se monge. Mas desengane-se quem ache que, Erasmo, era um cínico católico como os outros do seu tempo. Erasmo criticava afincadamente o dogma católico e a imoralidade do clero. Como é óbvio, esta posição não agradava à igreja. No entanto, Erasmo não era facilmente derrubável, era forte e tolerante e, ao invés de o tentarem afastar da igreja, foram-lhe oferecidos diversos cargos de poder. Erasmo recusou todos.

Entre as suas obras mais célebres está o Elogio da Loucura, onde defendia a tolerância e a liberdade de pensamento e criticava a Igreja. Um louco ou um homem corajoso? Ambos, diria. Cada herói tem tanto de louco como de corajoso, não fosse a coragem uma total loucura.

Imaginemos esta cena: um autocarro está à beira de cair num precipício. És uma pessoa atlética e capaz. Isto deixa-te com duas hipóteses: saltar da janela e salvar a pele (ou a vida, já que a pele talvez não ficasse em muito bom estado) ou tentar de alguma forma, parar o autocarro?

Vejamos os pensamentos por detrás de ambas as acções. Se saltares do autocarro é uma vida ganha em vez de todas perdidas já que, o autocarro está prestes a despenhar-se e não há nada que se possa fazer para o evitar. Este é o pensamento do comum dos mortais. Na segunda hipótese, porém, o pensamento foca-se na possibilidade de salvar toda a população daquele autocarro: se ficares e tentares pará-lo, todos sobreviverão. Este é o pensamento do herói. O herói sabe que se falhar todos morrerão, inclusive ele próprio, mas ele está determinado a fazer aquele 1% acontecer. Ele é louco o suficiente para acreditar em 1% e apostar nele a sua vida. Ele é louco porque acredita e afasta de si o poder do medo, humilha o medo e as percentagens feitas por matemáticos racionais.

Um herói é corajoso e louco o suficiente para acreditar com toda a sua alma. Ah, a loucura! O que seria da vida sem um pouco de loucura…

Pequena Grande Maldita C

Let´s Party

 

Hoje não quero saber. Só por hoje como os alcoólicos. Mais um copo de vida, não quero saber. E sai um shot de “I don’t give a shit” para a mesa número 2.

“Ao que estamos a festejar”, perguntam-me. “Ao não ter nada a perder” respondo antes de engolir de um trago um shot de “fuck off”.

Não há liberdade como a de não ter nada a perder. Se tudo corre mal, muito pior não fica. Vamos festejar às tristezas, às desilusões, às injustiças, à má comunicação e à morte das pessoas chatas. Azar mais azar dá sorte, não há o que enganar. E por falar em azar, bora brindar a isso com uma margarita de ilusões calientes.

Chateiam-me as pessoas injustas, não me sai da cabeça que existe certa burrice na injustiça, por muito que se achem espertos. Chateiam-me como o calor à noite, é enfadonho, arreliante e lembram-me bandos de galinhas histéricas. Deve ser o álcool a fazer efeito.

Irrita-me a arrogância, o orgulho, a superioridade… e ter o copo vazio. É uma irritação e indignação megalómana e há que resolver isso através de uma boa comunicação, diria qualquer psicólogo. Pois bem, é o que farei, vou ao bar e peço educadamente um copo de “filhos-de-30-mulheres-da-vida-vão-se-penetrar-a-vocês-próprios”, que a educação é muito importante e a minha mãezinha não me criou para ser rude com as pessoas.

Sou amável para toda a gente, mas tenho a grande infelicidade de não ser compreendida na minha amável espontaneidade. Não tenho culpa que as pessoas sejam intoleráveis como um rabanete crú no nosso prato favorito. E mesmo que seja cozido, rabanete é mau e pronto, não me questionem.

E tudo porque quero um mundo melhor, sem pessoas e com muito álcool. Será pedir muito?

E sai mais um shot, que a noite ainda agora começou.

Pequena Grande Maldita C

 

O Eremita

Já anoiteceu. Aqui a luz é um fenómeno raro, o céu está sempre nublado, mas ainda assim, a noite quando chega é fascinante. O dia fecha-se com uma cortina cor de ardósia semi-opaca que timidamente deixa vislumbrar as pulsações luminosas de pequenas estrelas e o cortejo lento das poucas nuvens.

Esteve sentado num penedo aquando do crepúsculo, esperando que as luzes das casas se apagassem e as vozes se calassem até o breu assentar. É agora o momento perfeito. Levanta-se, acende a lanterna e faz-se ao caminho. Uma vez por outra, torce os tornozelos ao colocar mal o pé numa pedra ou num tronco espalhados pelo trilho sinuoso, contorce-se nos segundos daquela dor passageira, e torna a seguir, caminhando, subindo, subindo.

Solta um pouco a corrente da lanterna para a aproximar mais do chão, inclinando-a para a frente, enquanto para trás vão ficando os suspiros das árvores ao vento. Fixa o caminho iluminado que procura, recolhendo-se dentro da sua capa, que já faz frio.

Após a longa caminhada, chega à casa solitária, escondida, onde só a respiração dele se deve ouvir, a sincronização com os sentidos, os pensamentos. Senta-se cá fora, à porta, e coloca a seu lado a lanterna que trouxe e que só com ele funciona, que tanta falta lhe vai fazer enquanto aqui estiver, ao compasso da aprendizagem, da cura, do alinhamento das vibrações descoordenadas.

Há que começar agora, enquanto ainda está escuro; cortar as cordas que com tanta força lhe apertam o peito, retirar o chapéu velho que lhe pesa na cabeça. Quando o dia raiar verá lá muito em baixo, ao longe, a mescla de confusão que irá, devagarinho, tornar-se mais pequena. Até o sol ser só seu.

 Pequena Grande Maldita F.

Partículas de Nada

Havia uma casa e algumas árvores. É tudo o que me lembro. O vento fazia as folhas das árvores balançar e eu ouvia-as de noite antes de dormir. A única recordação verdadeiramente nítida que ainda persiste é o som das árvores a dançar ao sopro do vento, embevecidas daquela melodia que o vento nos proporcionava e que me embalava de noite. O vento, as folhas das árvores a dançarem com o vento…

Um dia, disseram-me para ir e eu fui. Era só seguir em frente, disseram-me, e nunca parar. E eu fui. Era só andar em frente, não havia o que enganar. Disse adeus à casa e às árvores e fui. Andei, andei e andei mais rápido na avidez de chegar a bom porto, de chegar rápido onde tinha de ir. Era uma estrada recta, um caminho cheio de pedras e alguma relva em volta. Via setas por toda a parte a dizerem-me que seguisse em frente. Devia estar no bom caminho, pensei.

Continuei a andar, cansada, com frio e calor. Não sabia já quanto tempo tinha andado. A estrada era um deserto sem fim e eu só sabia que tinha que seguir em frente. Se este é o caminho, porque não há mais ninguém?-pensava, com as últimas forças do meu cérebro, sem chegar a nenhuma conclusão. Estava tão cansada. Ouvia as setas com os meus olhos, elas cantavam-me para seguir em frente “segue em frente, sempre em frente”.

Segui em frente. Olhei para trás por instantes e não havia nada, andara demais para poder voltar atrás. O caminho era em frente, não havia mais nada. A cada passo que dava, o caminho desaparecia atrás de mim mas eu tinha uma missão: “seguir em frente”.

As minhas pernas andavam sozinhas, o meu cérebro congelado, o meu peito empedernido e só aquele som, só as setas a mandarem-me seguir em frente. Já não havia árvores. Que saudades das árvores… O caminho era cada vez mais uniforme e cheio de nadas. Tinha sede até aos ossos e a minha pele, vermelha do sol, rasgava a qualquer contacto com o que deveriam ser pedras. Seguir em frente, sempre em frente, cantava com as setas, sempre em frente, mexiam os meus lábios.

O caminho era tão longo, o tempo não existia, era um conjunto de nadas e mais nadas, de canções de setas, de loucura que me aflorava a pele e me dava força às pernas. Avistei algo, segui em frente, um pouco mais rápido. Água, finalmente. Na beira de um precipício, água límpida e reluzente. Não havia nada atrás de mim, só um precipício em frente. A minha jornada terminara.

 

Pequena Grande Maldita C

Reunião de Egos

 

Sou um filme baseado em factos reais. Sou o que fui que já não é o que sou. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Ah, quem eu fui do que sou. Quem eu fui, nem sei contar. Perde-se a conta nos dedos e na memória. Conheço quem já conheci, diversas vezes.

Recordo-me de vários cadáveres. Oiço o riso de um e as confissões, as tardes passadas, as teorias… Doem-lhe hoje as confissões e as teorias mais reais e ortodoxas fazem-no perder a espontaneidade de outrora. É inevitável. Também a minha vem diminuindo com o tempo. Lembro-me de outro cadáver. Esse mais livre agora. Fico contente. A aura mais colorida e a confiança bem maior. Prazer em conhecer-te de novo.

Há tantos! Uns que são iguais e diferentes. Iguais nos ingredientes e diferentes na preparação. Outros porque são iguais e nós diferentes e os nossos olhos, agora a fazer o pino, dão-nos uma percepção diferente. Vemo-los por nós e, se nós não somos os mesmos, porque haveriam eles de ser os mesmos connosco, só porque o são com eles, na sua imutabilidade?

Um cadáver arrasta-se no meu pensamento, forçando-me as pontas dos dedos. Acalmou. O humor e a descrença intactas. A nostalgia que volta e meia o assombra. Criou algumas técnicas para lidar com ela. É agora cimento pintado de arco-íris.

Pergunto-me quantas pessoas seriamos nós hoje? Nós hoje em reunião. Nas várias vidas desta vida.

Invade-me a nostalgia pela janela. Vejo conversas na minha cabeça entre cadáveres e vivos como uma clareza esquizofrénica. Achamo-nos chatos ou inconsequentes, discutimos, viramos as costas. As vozes diminuem de intensidade enquanto se afastam na sua conferência intemporal.

Se nós conhecêssemos quem conhecemos como seria?

Se nós do passado nos conhecessemos hoje, como seria?

Para quantas pessoas teria que reservar mesa?

Os fantasmas riem-se maravilhados e anoitece. Boa noite!

 

Pequena Grande Maldita C

Arrepios intermitentes

  Estou para aqui entorpecida por um raio que me partiu, sem que dele me tivesse apercebido. Não me apetece levantar e abrir as janelas; o sol a rasgar as cortinas irrita-me, as correntes de ar incomodam-me. Não é frio, são os arrepios com intervalos. Principiam nos braços e insinuam-se aos ombros, investindo repentinamente para baixo, até ao fundo das costas, fazendo-me sacudir o corpo que dói da inércia.   

 Deixei que a indolência se apoderasse de mim e daquilo que sou feita para combater os incómodos do mau génio, mas este manteve-se incólume, hirto e atento. Quanta inflexibilidade, hã? Valeu a pena, valeu! Paciência, não pedi opiniões.

  Acordei a meio da noite, paralisada. No delírio da ira que a insónia fomentou, desentorpeci as pernas, virei-me, sentei-me, praguejei, e calei-me. Não sei quanto tempo fiquei encostada à parede a tentar perceber se estava mesmo sem dormir ou se estava a sonhar comigo mesma, ali de frente para a janela e para os estores fechados, mas subitamente mexi-me. Levantei-me, ouvi música baixinha, muito baixinha. Movia os braços, os pés. Talvez se abrisse um pouco a janela… mexer-me-ia mais? Não sei ainda se o génio vai pender para o bom ou para o mau. E se a abrir e ficar inerte no sítio para onde voei? Além disso, tenho de aprender a controlar o arrepio que tão violentamente me sacode, caso a corrente de ar entre com o sol que rasga as cortinas. Posso começar já a tentar, com a parede fria que me suporta as costas. E ali a janela, no escuro.

  Uma fresta? Só para começar?

 

Pequena Grande Maldita F

Amizade

Um brinde à amizade. Pago cinco euros por uma margarita e nem dez cêntimos pelo amigo.

A amizade está fora de moda. É um bem em desuso. Um bem, isso mesmo. Já não há questões

morais, tudo é comercial, um bem que se consome. Os amigos têm uma finalidade e nada

mais. Não chegam a ser pessoas, muito menos uma boa margarita.

Conhecemos tanta gente ao longo da vida e poucos ficam. E toda a gente reclama deste ou

daquele amigo e enche o peito para se afirmar o melhor amigo do mundo e arredores, que os

ET’s têm ar de ser muito pouco confiáveis com aquelas anteninhas para espiar a vida de toda

a gente. Uns fofoqueiros intriguistas, digo-vos eu. Pois bem, se toda a gente é tão bom amigo

e todos se queixam, onde estão os bons amigos do mundo? Uma incógnita quase tão grande

como a de onde está o avião da Malásia. Talvez estejam todos a beber margaritas com os

ET’s…

Mas deixemos os ET’s de lado, que não quero arranjar conflitos extraterrestres. Os

amigos, dizia-vos eu. Bem, já não há amigos. Só interesses. Aquilo a que se chama amigos,

actualmente, não vale nem os tais 10 cêntimos. Parece que a amizade se tornou o novo amor.

Uma mera ilusão romântica.

O curioso é que a dada altura (quando precisam) todos querem amigos extraordinários, todos

reclamam, exigem uma amizade verdadeira que nunca souberam dar a ninguém ou que deram

apenas enquanto não tinham nada melhor para fazer. E nem nessa altura se apercebem o

quão maus têm sido como amigos, o quão superficiais e desonestos têm sido para os outros e

até consigo próprios acreditando que são amigos maravilhosos.

A provar isso está o facto de até já existirem amigos por encomenda. Aqueles que se pagam

mesmo. Já se compra tudo neste mundo. Namorados, amantes, amigos, sexo. Há empresas

especializadas que lucram enormemente ao explorar a degradação do mundo. Hoje o mundo é

de plástico.

A moralidade e a fidelidade aos nossos princípios extinguiu-se e os princípios de hoje em dia

têm a ver com ecrãs, botões e hambúrgueres do Macdonalds, que até são muito bons. Mas,

meus amigos, se o que dão ao mundo é de plástico não façam exigências de carne e osso.

Um brinde à hipocrisia!

Pequena Grande Maldita C