Espelhos

 

As águas reflectem o sol e acolhem tempestades, meditam na calmaria da maré baixa e enfurecem-se na preia-mar. Dois lados antagónicos. Mas não há que temê-lo.

O oceano apenas é intenso, e querendo ou não, a coexistência entre o fundo índigo e a transparência de azul turquesa é necessária, tal como é necessário entender que com o nosso reflexo turquesa de corais e estrelas do mar coabita o índigo de predadores e adamastores.

As ondas que amedrontam alguém, aliviam o corpo de um outro alguém num dia de calor. Dá para perceber, não dá? O carácter dualista das ondas não importa, porque quer sejam pequenas, quer sejam grandes, há sempre um areal para as receber em cada uma das suas individualidades. Além disso, todas as ondas, dos mares mais tenebrosos aos mais plácidos, terminam com a mesma espuma branca das purezas e das pazes contidas. Por isso o areal não tem que temer o mar, apenas aceitar as suas marés.

Até no mar mais revolto vemos a mão de espuma branca no terminal do braço das ondas, qum sabe se à procura de outro braço, quem sabe se a oferecer conchas, quem sabe… E branco, para além de puro, não é o espelho de todas as cores, de todas as conchas? Por isso é que é tão importante haver sempre um areal que acolha as conchas perdidas e contidas no coração do oceano, sempre que as ondas as queiram libertar.

Eu nado em espelho de azul turquesa e estarei, brevemente, em maré baixa. E hoje vou rebentar as minhas ondas com espuma de arco-íris e deixar no areal as conchas que tenho perdidas cá dentro.

Pequena Grande Maldita F

Previsões Meteorológicas

Dizem que vai fazer sol há semanas. Fico sempre à espera do sol que não vem. E nem S. Sebastião aparece nestes dias de nevoeiro. Chove e o tempo encoberto e húmido corrói-me os ossos e tolda-me a visão. É tudo cinzento e triste à minha volta. Ah, mas dizem-me que vai fazer sol para a semana. Nunca faz, nunca a semana que vem é esta semana e os tempos difusos e labirínticos apertam-me e bloqueiam-me as cordas vocais. O tempo é incerto mas é certo que não fará sol. Mas vai fazer sol para a semana, dizem-me. E eu acredito como quem não acredita. E eu acredito mais um pouco, só mais esta semana.

Tornam-se então, todos os tempos um só, o meteorológico e que o que bate em tique taques de sangue no meu relógio. Oiço-o como pingas a cair em água e a inundá-la de cor. Tudo se mistura com densidade de sonho, é tudo difuso e incoerente. Uma imagem trémula e aguada. É claustrofóbico, eu sei. Aquele abafado frio, de Inverno, que persiste. E insiste. Insistem que fará sol. E vejo o sol a espreitar como o lobo mau à Capuchinho. E acredito. Então ele foge, tímido, escondendo-se atrás das nuvens.

Um dia o sol não voltará, digo eu para mim mesma. E não acredito.

E eis que chove novamente. As gotas fortes na janela assustam-me a alma e, o vento que não sinto dentro de casa arrepia-me a pele. Chove de novo. Talvez o sol não volte nunca mais. Talvez.

Pequena Grande Maldita C

A desconhecida

Aos 16 anos, o único desgosto que se deve ter na vida é o da paixão adolescente mal resolvida.

Aos 16 anos, tinha pêlo na venta e a inflexibilidade de quem tem a mania que sabe tudo, as certezas todas de quem ainda não sabe nada. Tinha a resposta despachada e a leveza de quem não tem preocupações nem em que reflectir. Mas, sob a camuflagem de quem não quer saber, vibrava com a dimensão do que sentia pelas pessoas.Pela família, pelos amigos. Vivia tudo aquilo que é suposto viver com essa idade, incluindo os desgostos. Mas com 16 anos, o único desgosto que devia ter era um infortúnio de paixoneta inconsequente. Nunca um desgosto para o qual não havia sido feita, que jamais conhecera, que não merecia.

A desconhecida chegou sem avisar no Verão.

Quando o telefone tocou, sentou-se no sofá a ouvir a conversa. A palavra precaução não teve o efeito que deveria. Inexplicavelmente, sentiu que o ar não lhe chegava para respirar nem mais um minuto. Alguém chorou. Nesse instante, o coração quase parou, numa inquietação que não conseguia justificar; um peso insustentável do laivo de presságio que lhe caía sobre os ombros. Soube que tinha de ir.

Estava sentada cá fora, à porta, no banco perto da entrada. Os 37 graus daquela manhã e o sol a bater-lhe na cabeça nauseavam-na, os braços ardiam, vermelhos, mas pouco lhe importava. A sala de espera, lá dentro, gelava-lhe o coração, e isso era muito pior.

Hoje, olhando para trás, vendo-se naquela rapariga de 16 anos perdida, queimada pelo sol, desejava voltar atrás e ir lá dizer-lhe para ficar ali. Não, não vás para dentro.

Horas. Passou esse longo dia, e no seguinte lá estava ela outra vez, a esperar horas sem fim. A solidão confortou-a mais nesse dia do que as palmadinhas nas costas dos que lá estavam e dos que iam passando. A escadaria e o corrimão entre pisos ao fundo do longo corredor branco foram o assento e o encosto daquelas horas vazias. Vazias de pensamentos, vazias de si mesma, porque ela não existia naquele instante. Apenas esperava, longas horas negras naquele corredor de paredes alvas, tresandando a éter.

Hoje, não são raras as ocasiões em que sente o odor a éter, às vezes enquanto dorme; o fedor branco de corredores compridos que não lhe dá respostas. Aos 16 anos, o único desgosto que se devia ter era o de paixão mal resolvida. Aos 16 anos, a desconhecida não se devia intrometer nos nossos dias para lhes roubar um pedaço de nós, porque o tempo não cura nada. Ela rouba-nos esse pedaço todos os dias, todos os anos. O tempo não cura, o tempo alimenta as perguntas e vicia a saudade.

 

“Dá cá um beijo. Gosto muito de ti. Até amanhã.”

Deu-lhe um beijo e um abraço, e o dia seguinte chegou frio, em pleno verão.

Andou, andou, andou, naquele cortejo até à porta do fim. Andou por lá de lágrimas mudas. Parecia insensível, apática. Naquele dia, não tinha uma resposta pronta.  Naquele dia, perguntou à desconhecida porque veio sem avisar e condená-la a não saber lidar com o cheiro a éter das paredes alvas que lhe levaram um pedaço de si.

Olhando em retrospectiva, contemplando a rapariga de 16 anos que naquele dia se perdeu ao sol e na escadaria do corredor, constata que pouco mudou desde aí. Mantêm-se as perguntas, que lhe roubam a coragem de lá voltar, que lhe impregnam algumas noites com éter.

Aos 16 anos não se devia ter um desgosto que não fosse de paixão adolescente mal resolvida. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete anos foram passando, mas parece que foi ontem. E a saudade é tanta, que até vendia a alma, se pudesse, só para que hoje fosse anteontem.

( Para o meu avô, onde quer que ele esteja. )

Pequena Grande Maldita F

Nem sempre é para perceber.

  Vira-se ao contrário, vezes sem conta, a frágil clepsidra da mesma história, aquela que não tem fim, como a água, que corre, pode desaparecer, mas volta e torna a correr. Uma clepsidra pequena, uma história curta para repetir tantas vezes, como um disco riscado que se prende sempre no mesmo refrão. Nem faria sentido se fosse de outra maneira! As tuas mãos não são as mesmas se persistirem no tempo, tal como os meus olhos deixam de ser os que conheces se os deixar acordados em nós mais do que é suposto. Temos de parar, para depois recomeçar tudo de novo.

  É o nosso castigo para o que desconhecemos que fizemos. Para nos cruzarmos temos primeiro de seguir caminhos opostos, e então aí tu deixas de ser tu e eu deixo de ser eu quando nos encontrarmos no lusco-fusco. Ainda hoje a memória, que se esconde nos cantos do tempo que vai passando, tenta descortinar a razão dessa loucura, mas o tempo que passou e o que ainda vai passar não lhe podem responder, porque é a história que se repete sem fim. A verdade incontestável, que é também a única certeza, apesar de inexplicável, é que não nos suportamos sendo o que somos, e só nos entendemos quando somos apressados. As histórias curtas e loucas repetidas até à eternidade, nem sempre têm explicação.

 A clepsidra foi virada, o tempo começa a contar. Observo-te e associo-te a uma estátua de mármore. A tua cara parece ter sido esculpida por um qualquer artista frio e rigoroso; a fronte larga e forte, o contorno perfeito e quadrado do teu maxilar, os traços precisos de todo o teu rosto insinuam um exímio trabalho calculado para te conferir a expressão implacável que o gelo cinzento e teimoso dos teus olhos exigia para os sustentar. Alguém te concedeu então um breve sorriso caloroso e o cabelo dourado para finalizar e humanizar mais a tua moldura, como que adivinhando que precisavas desse toque de harmonia para te equilibrar o semblante. E agora as mãos. As tuas mãos que parecem ter sido moldadas por outro escultor, de inspiração antagónica à do anterior! Este furtou, sabe-se lá a quem, a essência que podia ter sido dada ao teu olhar, por exemplo, e construiu uma obra original: pôs-te a alma nas palmas das mãos e os sentidos nas pontas dos dedos.

  As tuas mãos, que falam por ti. Podias estar quieto, desde que estivesses sem luvas, e eu saberia que estavas ali. Aliás, cheguei várias vezes a preferir-te calado, desde que me tocasses, desde que as tuas mãos se insinuassem a mim. Aprendi a decifrar as palavras que elas proferiam a cada gesto, descobrindo assim que elas dialogavam com os meus olhos, aqueles que dizes que falam por mim.

  Caiu a úlima gota de água, e tornaste a virar a clepsidra. Recomecemos.

  Repete-se tudo novamente. Outra vez, e outra vez. És louco, porque não páras de me procurar nos meus olhos, eu sou louca porque te indago nas tuas mãos; buscamos assim a verdade que temos em nós, porque para nos cruzarmos eu não sou eu e tu não és tu, e vivendo o que somos não nos entendemos, mas nada somos um sem o outro. As histórias loucas nem sempre têm explicação. Especialmente as que não têm fim, como a água.

  Temos, por isso, de ser apressados, recomeçar repetidamente a história curta para sermos sempre verdadeiros um com o outro. A água parece turva; a clepsidra é tão pequenina, que de tantas vezes que já foi e é virada, manuseada,  está frágil, tão suja, como os meus olhos que adormecem e as tuas mãos que se enluvam enquanto lhe damos descanso.

  Agora tens de ser tu e eu tenho de ser eu sem recomeçar a história, não nos podemos apressar, porque a clepsidra se partiu e mais nenhuma se há-de encontrar. São tão raras, assim pequeninas! Não a podes virar mais, não vês a água e os vidros partidos aos nossos pés? Deixa as mãos nos bolsos, que eu tapei os meus olhos. Somos genuínos agora, vivendo devagarinho, tu aí, eu aqui? Veremos.

  Já passou muito tempo sem a história louca, curta e inexplicável se repetir, o sol já se pôs tantas vezes sem que nos encontrássemos no lusco-fusco. Como vai ser agora?

  Estou a chegar ao cruzamento e já te estou a ver. Porque sorris tanto? Que seguras? Espera, acho que estou a perceber. Não consigo deixar de me divertir com a tua teimosia, com a nossa teimosia.  Já olhei para as tuas mãos, já a vi. A única coisa que me ocorre enquanto avanço para ti a rir-me que nem perdida, é questionar-me onde raio foste tu arranjar uma clepsidra nova.

Pequena Grande Maldita F

Prece

Todas as letras de que sou feita, toda a liberdade do meu caos literário, é tudo o que há de mais verdadeiro em mim. É o conforto da lareira, o chá dos doentes e o chegar a casa quando se está muito cansada. Hoje, a minha alma está muito cansada e aqui chego a casa vinda do abismo, onde me levantaram, as asas de letras, que cresceram em mim. E fascinada em versos e imagens, em frases e em fantasia, reluz-me de vida os olhos que, tão palidamente, se achavam em mim.

Tenho-te de graça e com liberdade. Que seria de nós sem a liberdade a que nos damos, a liberdade de não te usar, de só te usar porque quero, de só te usar quando me chamas e eu, de pijama e desgrenhada venho salvar-me em ti. E tu, serena e mansa como um anjo, vens enlaçar-te nos meus dedos e ronronar-me languidamente ao ouvido.

No mais escuro de mim tu brilhas e é a paz de ser duas que me dás, que vives em mim e eu vivo em ti e enfim, partilhamos a morada invisível do ser. Não quero deveres e tu não me os dás, não me cobras, não me iludes e ainda te iludes comigo. A liberdade que é suprema em ti corre-me nos pulmões e lembro-me de mim.

E lembras-me tão de mim de vez em quando, talvez porque guardes escondidas, lá no Universo de onde vens, quando me assolas, as memórias que abandonei ao relento à minha porta.

Só tu consegues pintar tudo o que é negro, transformar em cristal os males do mundo, divulgar com a vara da justiça e alimentar os esfomeados. E hoje, curvo-me perante ti,  nesta prece que te ofereço, neste agradecimento triste e escondo, escondo em ti, bem guardado, o que de mais puro há em mim.

Pequena Grande Maldita C

Gonçalo Julião

vem uma gaivota

para me roubar do meu sonho livre

estendo-lhe a mão

dou-lhe o meu pão

e ela não vai a lado nenhum

voam, as gaivotas,

assaltam mendigos de caixa de papelão

vão pela margem, terreiro fora,

ela come o pão, não vai embora

sou pensamento, de alma

corpo e coração

seguro a minha perdição

levo-a comigo pelos meus dias

enquanto houver pão

na minha mão

GJ

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