Nem tudo

NEMTUDO

Nem tudo o que brilha é verdadeiro

Nem tudo o que se vê é real

Nem todo o peixeiro é barraqueiro

E nem todo o moralista é leal

Nem tudo o que dói é amor

Às vezes é só dor

Ou desilusão.

Nem tudo o que pensamos é verdade

E há que confirmar a informação,

Esquecer um pouco o coração

E ouvir a razão e a idade.

Outras vezes basta ver o óbvio

E alimentar a alma de ódio

Há que ter respeito pelos outros

E enfrentar a cobardia

Para não virarmos monstros

É preciso valentia.

Nem tudo o que se sente é puro

Nem todo o pavimento é duro

Nem todos os fins justificam os meios

Mas todas as colheitas dão frutos.

PGM C

Tentação

Tentação

Eis que no meu peito

corroído pela lava

rebentam águas salgadas

banho-me nas furnas

da cravada ilha alva

cuspo de vulcão desfeito.

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Se pedras forem castigos

dados aos tarados nos pelourinhos,

se os demónios forem desiguais

envenando n’Olímpo os gigantes divinais

Abalo com as tuas pedras

o teu templo herético

selo o teu jazigo helénico

c’o horror dos cubistas.

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Prostra os forasteiros,

bebe tu meu mar, o meu sangue.

Por pecados que apenas eu me castigue

ardendo na lava do meu peito.

PGM J

Medo

Medo - desenho gentilmente sucedido pelo Blog Idiota (https://goncalojuliao.wordpress.com/2013/10/31/medo/)
Medo – desenho gentilmente sucedido pelo Blog Idiota (https://goncalojuliao.wordpress.com/2013/10/31/medo/)

Faço o funeral ao medo.

Não me recordava,

desde que percebi

de que em pequeno

rodeado de medo

e morte me vi,

até a morte ser medo.

Medo é errado.

Medo é bom.

Fatalidade era costume

ateado em brado lume

encostando-me, assombrado,

à alucinação fantástica

das maravilhas da infância.

Até me saber só

nada percebia do logro

da tristeza e seu ócio.

Do vício e do dó

evidenciaram-se as rédeas,

arreando o desejo,

desejando ser só,

de uma só vez, todo só.

A perda é uma cela.

Medo é doença.

Perto de revelações, penso,

que o mundo cabe no meu abraço

e se o destino é finar,

que me esgote eu sem pesar.

PGM J

As labaredas do renascimento

jsc

O céu trocou o azul pelo branco

As coisas perderam o encanto

Dos vidros restaram os cacos

Naquele silêncio de fracos

Passaram horas naquela escada

Com a noite veio a geada

E eu de mãos vazias esperava

Por uma sombra que nunca chegava

Cansei-me e levantei o corpo

Que só o corpo restava

O espírito jazia morto

Na dor que o amor agrava

Mas num dia de Inverno

Em que o sol fulminante se rendeu

Bebi as gordas gotas de Inferno

Como um orgulhoso ateu

E a minha alma ardeu de repente

Na paixão que novamente

Me invadia sem pudor

Naquele diurno ardor

Quis ser tudo o que era meu

Que eu merecia o céu

E no paraíso que fechava na mão

Já não temia dor ou solidão

E renasci naquele romance solitário

Naquele canto de café ordinário.

PGM C