Tentação

Tentação

Eis que no meu peito

corroído pela lava

rebentam águas salgadas

banho-me nas furnas

da cravada ilha alva

cuspo de vulcão desfeito.

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Se pedras forem castigos

dados aos tarados nos pelourinhos,

se os demónios forem desiguais

envenando n’Olímpo os gigantes divinais

Abalo com as tuas pedras

o teu templo herético

selo o teu jazigo helénico

c’o horror dos cubistas.

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Prostra os forasteiros,

bebe tu meu mar, o meu sangue.

Por pecados que apenas eu me castigue

ardendo na lava do meu peito.

PGM J

Medo

Medo - desenho gentilmente sucedido pelo Blog Idiota (https://goncalojuliao.wordpress.com/2013/10/31/medo/)
Medo – desenho gentilmente sucedido pelo Blog Idiota (https://goncalojuliao.wordpress.com/2013/10/31/medo/)

Faço o funeral ao medo.

Não me recordava,

desde que percebi

de que em pequeno

rodeado de medo

e morte me vi,

até a morte ser medo.

Medo é errado.

Medo é bom.

Fatalidade era costume

ateado em brado lume

encostando-me, assombrado,

à alucinação fantástica

das maravilhas da infância.

Até me saber só

nada percebia do logro

da tristeza e seu ócio.

Do vício e do dó

evidenciaram-se as rédeas,

arreando o desejo,

desejando ser só,

de uma só vez, todo só.

A perda é uma cela.

Medo é doença.

Perto de revelações, penso,

que o mundo cabe no meu abraço

e se o destino é finar,

que me esgote eu sem pesar.

PGM J

As labaredas do renascimento

jsc

O céu trocou o azul pelo branco

As coisas perderam o encanto

Dos vidros restaram os cacos

Naquele silêncio de fracos

Passaram horas naquela escada

Com a noite veio a geada

E eu de mãos vazias esperava

Por uma sombra que nunca chegava

Cansei-me e levantei o corpo

Que só o corpo restava

O espírito jazia morto

Na dor que o amor agrava

Mas num dia de Inverno

Em que o sol fulminante se rendeu

Bebi as gordas gotas de Inferno

Como um orgulhoso ateu

E a minha alma ardeu de repente

Na paixão que novamente

Me invadia sem pudor

Naquele diurno ardor

Quis ser tudo o que era meu

Que eu merecia o céu

E no paraíso que fechava na mão

Já não temia dor ou solidão

E renasci naquele romance solitário

Naquele canto de café ordinário.

PGM C

Desafio: Crónica de Género

crongen

Estamos longe de ser um país igualitário. O mundo está longe de qualquer igualdade no que se refere ao género.

Género: masculino ou feminino – classificam-nos logo à nascença. A partir daí estamos marcados, como gado, para sempre. Cor-de-rosa para as meninas, azul para os meninos, bonecas para as meninas, carrinhos para os meninos.

Moldam-nos, para encaixarmos na sociedade existente onde só cabe sofrimento e discriminação ao género feminino e se mente o tempo todo, a tentar mostrar que essa discriminação já não existe ou já não é importante. Dizem-nos que as mulheres já estudam, já votam, já têm carreiras de sucesso. Que mais poderíamos querer? Respeito. Falta o respeito, meus caros. Respeito e liberdade.

Dão-nos nenucos para aprendermos a cuidar dos filhos, como se os filhos fossem só nossos, como se a obrigação fosse só nossa. E barbies com belos vestidos para ficarmos sempre bonitas para os futuros maridos. E somos assim traídos pela nossa própria família. E carros e bonecos de guerra aos meninos para aprenderem a serem bestas fúteis mas continuarem a achar que são fortes e imbatíveis.

Dizem-nos para sermos discretas, para termos medo. E temos realmente do que ter medo. O mundo não é feito para as mulheres. Não é seguro andar na rua, não é seguro sair com uma amiga, não é seguro beber demais, não é seguro vestir roupa curta ou decotada. O mundo é um constante estado de alerta para as mulheres. E não só entre homens. Muitos dos seres mais machistas são mulheres.

Ensinam-nos que o mundo é assim e pronto. As mulheres são frágeis e os homens não choram. E toda a gente acredita. Mesmo que argumente veementemente o contrário. Porque está lá implantado desde a lavagem cerebral que nos vão fazendo desde nascença. Então é mais ou menos nisso que nos tornamos mesmo, ainda que uns mais e outros menos. Não temos direito de escolha, está lá, em tudo o que nós fazemos ou pensamos.

Acho especial piada de uma maneira bem triste aos homens que dizem não ser machistas. E depois são capazes de dizer que as mulheres usam decotes para os homens olharem e têm amigos que exibem conquistas e traições. Exibem porque têm para quem exibir. Assim, simples. E quem os ouve é tão machista quanto eles com a agravante de ainda nem terem chegado a um estado de autoconsciência. É como as mulheres que dizem que esta ou aquela é uma “vadia” ou coisas piores. Triste da mesma forma. Mas no caso delas, elas são vítimas e algozes. O sofrimento desta psicopatia social cabe maioritariamente às mulheres.

“Os homens são de Marte e as mulheres são de Vénus”. Não são, mas tornam-se inevitavelmente já que são criados para serem opostos e o homem quase treinado para rir e evitar o suposto sentimentalismo feminino. Consequentemente, com tantas coisas que os separam, homens e mulheres nunca serão felizes juntos. E a taxa de divórcio cada vez maior existe para o comprovar.

PGM C

Desafio “All you need is love”

Dezembro traz mais do que frio e memórias. Dezembro traz-me a memória do teu calor. Dezembro traz de volta o que Janeiro deitou fora. Tenho percorrido com os dedos os caminhos do teu corpo suspensos no ar, contornos onde a poeira assentou. Então, tenho percorrido as mesmas lembranças, mas falta a tua cara. Não me lembro da tua cara. Dezembro tra-la-á de volta.

Pelas ruas só se vê pressa, o ar foge entre os carros, os carris, entre as pernas e os gritos. O ar assobiado pela pressa assalta Lisboa, que exaspera o sentimento rápido, a pressa de chegar a madrugada, a pressa de deixar de sentir, a pressa de adormecer. Com todo este barulho à minha volta, no meio do caos, eu só espero por te poder levar a voar. Num só fôlego poder soprar-nos até ao espaço, na combustão da vontade com que te quero a derreter como rochas na tua lava, soprar-nos para longe, desafiando a gravidade, perfurando a opressão do ar pesado, em câmara lenta, derretendo. Quero morar no espaço, onde as estrelas não são estrelas mas monstros como nós. Quero lá nascer de novo sem saber quem fomos e o que fizemos. Quero lá conhecer apenas a calma de existir e os teus encantos de lava no seio do mais inóspito frio.

Até te trazer de volta, o tempo que destrói a minha fé, conta até zero para poder descolar. Enquanto isso cai mais uma hora sem pressa, e todas as horas representam nada, porque, quando chegares seremos a luz que falta em Dezembro.

PGM J

Bloqueio

bloqueio

Pedem-me para escrever. Não posso. Permitam-me a petulância de me dizer num bloqueio artístico. É pomposo, soa bem e ninguém leva a mal. É um carnaval autêntico.

Mas não. O meu bloqueio “desapalavrado” está mais para manicómio que para estrelato. As palavras cessaram. É tudo um complô. Castiguei umas quantas que não param de querer fugir e pronto, veio a solidariedade adolescente e mais nenhuma quis sair em condições. Rebeldes!

Agora é assim, sou um tédio. As palavras sempre às voltas na minha cabeça como as estrelinhas dos desenhos animados quando eles batem com a cabeça. E eu, vil e cruel, não as deixo sair. E elas sempre lá a não darem espaço às outras, que até se escondem, revoltadas com a minha impiedosa atitude. E não sai nada, é um quase, uma bala que não sai do cano.

Tento desembaraçar-me do assunto constante mas, por mais que o amarre, oiço-lhe a voz aguda nos tímpanos e quem fica amarrada sou eu, naquele canto de sereias. Empalideço e cala-se-me a voz. Pareço um cadáver esquizofrénico. Ou esquizóide, só para me fazer de entendida nestas coisas das ciências para avariados do pimpanico (perdoem-me o neologismo saloio). Estou de todo!

Mas as palavras malditas não me vencerão. Sei que são flechas atiradas, que uma vez ditas traçam destinos mais ou menos ensanguentados mas a sua fatalidade e importância não me deterá de castigar as caprichosas. Elas que aguardem! Já chega de congestionamentos no meu cérebro, trancinhas com os meus miolos e sons irritantes aos meus ouvidos. As reguilas não perdem pela demora… Vejo-as escapulirem-se, medrosas, pelas estradinhas de carne. Mas sabem o que vos digo? Podem fugir mas não se podem esconder e em breve também o vão saber.

PGM C

’tou a ver

redoma

– Não gosto muito de invasões barulhentas – disse, num tom de puro fastio -, já o disse antes e volto a repetir com a mesma veemência.

– De onde veio essa? – pergunta, recostada na cadeira, sonolenta do longo silêncio decorrido, quebrado pela minha observação.

Expliquei-me e ela ouviu… pelo menos parcialmente, apenas observando o movimento dos meus lábios. ‘Cada palavra parece decorada, ele não vacila’, pensa ela, ‘aquilo deve ter estado a ruminar ali dentro, à espera de sair’. Falava sem interrupções e projectava o vago olhar para a cabine telefónica, desenrolando o monocórdico monólogo.

‘Grande monólogo que para ali vai!… É suposto eu perceber ou ele acha que faz sentido? Há-de fazer algum, lá no meio da palha…’

Encarava-me, a expressão era de total passividade, ausente, expressão de alguém que desligou o cérebro para recalibrar.

– Mas vê se percebes o que te digo, é mesmo como o episódio da rainha feiticeira e os Templários.

‘Epá, espera lá que vem aí da boa!’ pulou na cadeira e inclinou-se na mesa para ouvir o resto.

– Hm, pois… Como… Como?

– Então – agora focando-me nela -, houve muitas guerras nos episódios das Cruzadas, e eles simplesmente invadiam os territórios onde sua Divindade ainda não era sabida e proclamavam as terras. O que me espanta nestes sujeitos é atitudezinha de criança possessiva, sabes, como quando os nossos putos berram e se atiram ao chão e não nos deixam usar a sanita porque de repente acham que é só deles, embora usem fraldas, ou como quando se apoderam do comando da tv, ou das chaves do carro. Eles só querem o que não é deles. É o mesmo com os Templários e a avidez da Cruzadas.

– Hm, pois – sorvendo o resto do café.

– Tanto invadiram que um dia chegaram à terra da tal feiticeira – interrompeu-me – Espera! Mas qual feiticeira? Não me lembro de nada sobre feiticeiras nas Cruzadas… – Esta acho que era uma rainha deusa da Síria, ou assim… É bem capaz, aquela gente não brinca. Enfim – continuei -, eles chegaram lá, acamparam, trotaram até à dita feiticeira e foi logo “Saia daí que isto agora é nosso”. Como disse, houve muitas guerras, mas com esta não tinham hipótese, foram vaporizados, mas não sem antes verem  um bocado das profundezas do Inferno. Quando é assim, esquece lá o Cavaleiro Templário e a supremacia da palavra do senhor, quem pôde escapar não parou de correr. É assim que me sinto quando se intrometem no meu sossego.

Ficou estúpida a fitar-me com dúvida e desatou a rir.

– Ha! Tu és demais!

– Então porquê? – franzindo face à condescendência – Com essa figura triste sabes quem me fazes lembrar?

– A tua mãe? – disse, já azeda com a conversa.

Não reagi ao ataque directo e prossegui.

– Não. Fazes-me lembrar aquela criatura Macbeth. Onde quer que fosse envenenava tudo e todos, caso não tivessem já sido envenenados.

– Mas tu sabes do que falas?

Silenciei-a com o gesto de um dedo.

– Essa mesma Macbeth, na sua vil perfídia, era bem capaz de me dar uma sopa envenenada e roer-se toda de antecipação até dar a primeira colherada, e, caso estivesse a demorar muito a lá chegar dir-me-ia algo como “Não comes a sopa? Está a ficar fria”. Se oferecesse resistência então dir-me-ia ” É que já está envenenada, mais vale agora enquanto está quente”. É essa a mesquinhice que trazes sempre contigo. A minha mãe sabe cozinhar.

– Acaba lá de fumar e vai trabalhar, é disso que estás a precisar.

Maremoto

Vazio

Passaram tantos anos nestas últimas semanas. E o tempo feriu e o tempo sarou e o tempo não cura. O tempo limpou a cidade num maremoto discreto e pintou-a de um vermelho gélido.

-O que aconteceu ao ódio?- perguntam-me

– O ódio foi parar a um manicómio. Está lá preso numa camisa-de-forças, a injecções e

calmantes. – Respondo, com os olhos colados à janela.

Não desenvolvi a explicação. Passaram tantos anos, entretanto, de facto. E o ódio ainda tenta fugir, de vez em quando, mesmo sabendo que é em vão e que as amarras e as drogas o prendem à realidade do nunca.

Aquela paulada de nostalgia recorda-me aqueles tempos. Eu escalava um muro de pedra para escapar ao maremoto. Chego a sentir as pontas dos dedos arderem novamente, no esforço para não escorregarem das falhas da pedra a que agarrava a minha vida. Olhava para baixo num medo frio, os ossos doridos, o sangue a pulsar frenético e vivia para não morrer. Escalei, sem olhar para trás. Quando cheguei ao cume, caí de um cansaço limite, acordei horas depois.

Tudo o resto é vago. É água e pedra, não sei.

Não mais olhei para trás, fiz-me de pedra e bebi a água de um trago. E a água cresceu em novo maremoto em mim. Desfiz-me num orgulho tal que quase me inflamava a vista. Toda eu me desfazia em água, num renascer triunfal.

Não é que nada esteja certo. Mas também o não estava naquele dia e eu escalei. E escalarei até ao meu novo cume. Quanto ao ódio cuidarei dele como a um gato felpudo que cintila nos meus olhos. Não culpo o tempo que não sara como esperam que faça. Ele nutre. É tudo o que espero dele.

PGM C

Depois da Correspondência

poucomeimporta

Para um autocarro que fazia um trajecto mínimo, dentro do bairro, era mesmo pequeno. A vizinhança envelhecida descia a pé para o café e voltavam de boleia ainda com o assunto básico de mesa de café. Enfim, precisava de chegar a casa e a chuva tornava o frete de carregar os sacos de compras ainda mais pesado. Chegada à paragem final, saiu por último, passando por baixo dos chapéus-de-chuva do bando unido. Mal se molhou. Cheirava a jantar no patamar, hoje tinha companhia. Enfiou as chaves na fechadura silenciosamente e abriu a porta empurrando-a com a anca, trazendo as compras para dentro de uma só vez, sem um único ruído. Saltou para dentro da cozinha para a assustar:

– Já te vi!… Já que estás aí, passa-me o tomilho.

Com o ar miserável de quem viu o seu prazer estragado, ali ficou, à espera de algum tipo de desculpa pela falta de entusiasmo.

– Se?!

– Se, nada! Mexe a peida. – Estava de costas, mostrava a face em semi perfil, mas conseguia-se ver o sorriso provocador nas rugas.

Passando-lhe o frasco – Mas vais assar o quê?- espreitando por cima do ombro dela.

– Vou fazer comida a sério, já não deves reconhecer sequer pelo nome…

– Eu trato bem de mim, não te preocupes. – encostou-se à bancada, de lado para ela, a olhar para os ténis molhados – Não é que estejas cá para ver.

Cortando freneticamente as cebolas em quartos e as cenouras em tiras, calou-se e prosseguiu.

Os cheiros, a carne, os temperos, lembravam-na de casa, talvez isso chegasse para manter a calma. Abandonou a cozinha e aquela que se tornava na mais pura estranha com quem dormia. Vasculhou o correio e surpreendeu-se ao ver um nome familiar.

– Viste o que vinha no correio?!

– Vi! Tive de olhar duas vezes, não queria acreditar!… Parece que, afinal, sempre se lembra de ti.

– Hm, pois…

– Devias ligar. – limpando as mãos e encontrando-a no corredor – Ele tem o teu número, sequer?

– Não… Senão, tinha ligado. Não é muito dado a correspondência…

– Pois, realmente não sei porque perguntei. Vens-te embora, não te despedes, não dizes nada… é óbvio que… – engoliu em seco – Olha, daqui a mais ou menos meia hora está feito, vou só tomar duche.

– Ok.

– Queres vir?

– Vou pôr a mesa.

Hesitou a caminho do duche, já despida – Ao menos não foi por e-mail… Ou pior! – e fechou a porta atrás dela.

‘Ou pior… És engraçada, chegas e podes atirar as merdas para o ar… é preciso ter cara.’, pensou.

Puxou uma das cadeiras da sala, sentou-se e sentou o telefone no colo. Ligou-lhe. Precisava de ouvir a voz dele, para a tirar, ainda que momentaneamente, do vazio a que se atirara, no isolamento.

– Então?! Adormeceste aí? – gritou-lhe da porta da casa-de-banho, de onde a conseguia ver, com um ar pesado e de olhos fechados. – Vai ver a carne, depressa!

Não dormia, por assim dizer. Tinha a cabeça à roda. As ideias fugiam do lugar e alguma claridade atirava as convicções para o esquecimento.

– Depressa!

– Sim, já ouvi. Estou ir!

– Ok, mas mais depressa! Antes que queime!!

– Não comeces. Não te armes em mamã. Fica-te mal.

– Vê se o tabuleiro está seco.

– Se eu te chamar nomes tu ouves ou vais mandar-me fazer a cama? – gritou da cozinha.

Enrolou o cabelo na toalha, vestiu o robe, entrou na cozinha e desligou o lume, abrindo logo a porta do fogão, espetando um garfo na carne.

– Ainda se pode comer. – Desenrolou a toalha, deixando cair os cabelos castanhos nos ombros, secando-os calmamente, das pontas para cima, sem trocar olhares – Sabes, se deixasses de dizer tanta merda e te dedicasses a crescer um bocado, talvez não precisasses de mim para te sentires mal, nem para cuidar de ti. Mas, como sempre, a decisão é tua. Amanhã volto para o meu estúdio, tens o que precisas para os próximos dias já tudo pronto. Agora vou-me sentar à mesa a comer. Traz o vinho. – Pegou no jantar e avançou para a sala, deixando um rasto de desdém à sua passagem.

A última vez que tinha comido algo cozinhado num forno, estava em Lisboa, num jantar de despedida. Ele não foi a esse jantar, não por esquecimento, mas por despeito. O vinho não respirou, despejou-o gulosamente nos copos.

– Liguei-lhe.

– hm… e que tal? – Bebendo.

– Está tudo óptimo… Tudo diferente, na verdade!…

– Isso quer dizer o quê?

– É estranho, sei lá… Falar de como estão as coisas… Da última vez que falei com ele eu tinha acabado de sair da faculdade, ele já tinha saído há dois anos, sempre a trabalhar, sempre nas coisas mais maradas, com projectos assim e assado que nunca viram a luz do dia… De repente desapareceu e era gajo de negócios da China, ninguém lhe punha a vista em cima, sempre de um lado para o outro em coisas supostamente importantes… O que mais me custou foram as vezes que fez questão de saber alguma coisa, os convites para sair, as mensagens de parabéns, que não aconteceram, simplesmente! – parou para beber, recuperando o fôlego.

– E? Do que falaram?

– De muita coisa, mesmo. – fitou-a através do copo – Falámos do que andava a fazer… Imagina – riu-se – demitiu-se!

– Mas afinal que fazia ele?

 – Epá, tanto quanto percebi, era um trabalho cheio de promessas, e tal…

 – Ah, isso é bom para currículo… “Último posto de trabalho: algo cheio de promessas, lda”! Ahah!

– Mas espera! – encheu de novo os copos – depois de todo o tempo e, segundo ele, esforço investidos, responsável por um departamento, lançado no trabalho e na carreira!

– Isso lembra-me alguém…

– Quem é que se atira para o desemprego, nos dias de hoje, sem garantias sequer de nada? Quer dizer, pelo que me contou, tudo corria bem, promovido e a gerir coisas, parece coisas de gente grande…

– E o que anda agora a fazer?

– Anda em projectos.

– Ah! – exclamou sem surpresa – Que projectos? – desta vez encheu ela os copos.

– Projectos dele, disse-me que tinha projectos em stand-by, ia retomar alguns. Entretanto tinha umas cenas novas a acontecer… Ele nunca revela muito, sabes como é. De certeza que é algo com escrita ou foto…

– Nunca vi nada dele, por acaso…

– Tenho algumas coisas que fizemos em conjunto, já te mostro.

– Sim. Gostava de ver – olhou-a, finalmente,  nos olhos. Para quem está habituado a ler pessoas, não é difícil ver nos olhos que não traem, a culpa. Foi instantânea, a leitura. O vinho tornou  o perdão mais volátil.

– Está ali no meio das minhas coisas, eu trago para aqui. – levantou-se com o ânimo que não tinha antes de se estabelecerem tréguas. Vasculhou na bancada junto à janela, do outro lado da sala de jantar.

– E ele disse-te porque decidiu deixar o emprego?

– Sim! – regressou à mesa com algumas folhas escrevinhadas, poemas traduzidos e alguns desenhos a caneta. – Sentia-se doente, exausto, sem propósito. Disse mesmo que sentia a alma a mirrar, ou melhor ainda, “a pipoca a fritar, a queimar”, citando-o… enfim, não havia ninguém acima dele que levasse uma vida que ele invejasse, sequer. “Não há dinheiro que pague o meu bem estar. Não há realização sem fazer aquilo que faço com amor. “O meu tempo é precioso e vou usar todos os meios para me exprimir. Isso é, para mim, felicidade” disse ele, mais palavra menos palavra…

– Uau!

– Uhm… sim…

– Uhm, sim, o quê?

– Estou a pensar fazer o mesmo. Dinheiro,  de alguma forma, é mais perda que ganho. Quero algo que não posso adquirir. Antes voltar do que continuar.

– Antes voltar do que continuar?

– O mesmo não se aplica a nós.