a “Canção da manhã fria” de António Patrício

manhasfrias

Hoje sinto que todos os meus versos
serão partes incompletas d’um poema só,
triste como a solidão de Nobre

O som é mudo, a voz calou na garganta
e o frio (ou é impressão)
povoa o meu peito deserto

 

As árvores desfolhadas dão à rua
um estranho ambiente fantasmagórico
deambulada por espectros de cores soturnas

 

E eu olho indiferente para o abandono que carrego
nas mãos incapazes
estátuas frias onde nem os pássaros cantam o dia

 

Vou buscando uma réstia de Primavera
neste dia de folhas mortas
no tépido contacto do teu corpo

 

António Patrício

 

Quero fazer, com honras, as correctas apresentações ao autor corajoso por aceitar o convite de entrar na Esfera e partilhar um dos seus “Apontamentos de Babel”.

António Patrício, como é conhecido na blogosfera, tem trazido boas leituras à Esfera, acompanhamos os poemas que contam tanto sobre este “não poeta” assumido.

Deixo-vos com as palavras do mesmo:

“Eu!?…

Eu? Sou eu , está bem de ver! Com defeitos e virtudes; passado (por vezes complicado), e presente! Futuro?
Por esse vamos esperar que seja presente e depois logo se vê!
Nasci a espernear e aos berros, em 1963…
José António Patrício Pereira, foi o nome que me deram (porque alguma coisa me teriam de chamar), eu acho que António Patrício é mais prático. Fiz muita coisa na vida; foi nos jornais que me senti em “casa”. Vou tendo a mania que escrevo alguma coisa; mas, acreditem, é mesmo só mania.
Sou (ou tento ser), uma pessoa igual, e diferente, de todos os outros.
Na bagagem levo já amores (uns ganhos outros perdidos), dores (o quanto baste), e algumas, outras, lutas por começar.
Nasci… Tenho alguns anos de vida…
E ainda não morri!
É a vida!!!

E agora, se me permitem, vou continuar a respirar; que a viagem é longa e a vida muito curta para a completar.”

Visitem: https://apontamentosdebabel.wordpress.com/indice-geral/

PGM J

Tentação

Tentação

Eis que no meu peito

corroído pela lava

rebentam águas salgadas

banho-me nas furnas

da cravada ilha alva

cuspo de vulcão desfeito.

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Se pedras forem castigos

dados aos tarados nos pelourinhos,

se os demónios forem desiguais

envenando n’Olímpo os gigantes divinais

Abalo com as tuas pedras

o teu templo herético

selo o teu jazigo helénico

c’o horror dos cubistas.

Se em pecado ouso,

dai-me à rebentação.

Vem da perdição, logro,

momentum e sensação.

Prostra os forasteiros,

bebe tu meu mar, o meu sangue.

Por pecados que apenas eu me castigue

ardendo na lava do meu peito.

PGM J

Medo

Medo - desenho gentilmente sucedido pelo Blog Idiota (https://goncalojuliao.wordpress.com/2013/10/31/medo/)
Medo – desenho gentilmente sucedido pelo Blog Idiota (https://goncalojuliao.wordpress.com/2013/10/31/medo/)

Faço o funeral ao medo.

Não me recordava,

desde que percebi

de que em pequeno

rodeado de medo

e morte me vi,

até a morte ser medo.

Medo é errado.

Medo é bom.

Fatalidade era costume

ateado em brado lume

encostando-me, assombrado,

à alucinação fantástica

das maravilhas da infância.

Até me saber só

nada percebia do logro

da tristeza e seu ócio.

Do vício e do dó

evidenciaram-se as rédeas,

arreando o desejo,

desejando ser só,

de uma só vez, todo só.

A perda é uma cela.

Medo é doença.

Perto de revelações, penso,

que o mundo cabe no meu abraço

e se o destino é finar,

que me esgote eu sem pesar.

PGM J