Já não há palavras

Volto ao local do crime como um assassino em série. Vejo o comboio partir à minha frente. Fico à espera. Olho as carruagens que circulam nos carris como se fossem para o horizonte, como se fossem e não voltassem.

Já não há mais palavras. Esgotaram-se em discussões, esgotaram-se em frustrações. Resigna-se no meu peito a dor inútil que me transborda. Sei as palavras de cor e as teimosias, de que serve repetirmos discussões? De que serve gastar palavras em vão e fazer transbordar mais o rio que me habita o peito?

Não há nada a fazer quando as palavras acabam. Vejo o comboio afastar-se lentamente de mim, enquanto prego os olhos ao chão. Tenho meia hora de espera em frente mas, hoje, a espera parece-me tão curta e aconchegante que o tempo parece não existir.

Vem ter comigo um homem, velho e estranho. Pergunta-me até onde dá o L12 para o lado de Sintra. Digo-lhe que acho que dá mesmo até Sintra, ele reclama, diz que não e vai embora, perguntar o mesmo a todas as pessoas da estação com o seu rádio sem fones. Não argumento, sempre ouvi dizer que aos malucos diz-se sempre que sim e hoje é dia de evitar conflitos. Dia, mês, meses, é tudo o que tenho feito. É o que resta quando as palavras acabam. Evitar conflitos, para a água do rio não transbordar.

A seguir, um rapaz estrangeiro pede informações para ir para Sintra a um grupo de pessoas ao meu lado. Eis alguém que não me veio chatear num dia que realmente não me apetece falar com pessoas. Solidariedade dos 20’s, certamente. Obrigada, senhor estrangeiro na casa dos 20. Mas surge-me então outra questão, o que raio quer tudo ir fazer a Sintra? Ainda para mais numa estação onde o comboio vai para Mira-Sintra Meleças e não exactamente para Sintra.

Não importa, nada importa. Apanho finalmente o comboio e, de costas, vejo toda a paisagem ir embora, ficar para trás. Até o sol ia embora gradualmente. Sinto que as coisas irão voltar à estaca zero. Não dá mais para evitar o inevitável.

Falta-me o autocarro, mais uns 10 minutos de espera. E, novamente, estou eu muito bem a tentar ser invisível e um homem vem ter comigo. Diz-me para avisar a filha para sair em Carenque, que ela vai ter com a mãe e pode-se distrair e deixar passar a paragem. Raio de pedido para se fazer a um estranho. Especialmente quando a filha estava do lado oposto da paragem, com um ar pouco preocupado e, ainda mais, sendo este um pedido feito a alguém que não gosta e está farta de crianças e num dia pouco agradável. Será que ninguém percebe que não quero comunicar com ninguém?

Caros colegas humanos, já não há palavras. Lamento, mas esgotou-se a fonte. O rio vai transbordar inevitavelmente e o comboio não irá voltar um dia. Um dia tão próximo. Já não há nada a fazer, não vale a pena. As palavras morreram nos nossos colos e apodrecem…

 

Pequena Grande Maldita C

 

One thought on “Já não há palavras

  1. Essa maldita e impiedosa desconhecida, mal tratou-me tanto por esses dias que até hoje não consigo descrever o quão incompleta me deixou. Amo-te querida e o avô também te amava muito.

    IT

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