Partículas de Nada

Havia uma casa e algumas árvores. É tudo o que me lembro. O vento fazia as folhas das árvores balançar e eu ouvia-as de noite antes de dormir. A única recordação verdadeiramente nítida que ainda persiste é o som das árvores a dançar ao sopro do vento, embevecidas daquela melodia que o vento nos proporcionava e que me embalava de noite. O vento, as folhas das árvores a dançarem com o vento…

Um dia, disseram-me para ir e eu fui. Era só seguir em frente, disseram-me, e nunca parar. E eu fui. Era só andar em frente, não havia o que enganar. Disse adeus à casa e às árvores e fui. Andei, andei e andei mais rápido na avidez de chegar a bom porto, de chegar rápido onde tinha de ir. Era uma estrada recta, um caminho cheio de pedras e alguma relva em volta. Via setas por toda a parte a dizerem-me que seguisse em frente. Devia estar no bom caminho, pensei.

Continuei a andar, cansada, com frio e calor. Não sabia já quanto tempo tinha andado. A estrada era um deserto sem fim e eu só sabia que tinha que seguir em frente. Se este é o caminho, porque não há mais ninguém?-pensava, com as últimas forças do meu cérebro, sem chegar a nenhuma conclusão. Estava tão cansada. Ouvia as setas com os meus olhos, elas cantavam-me para seguir em frente “segue em frente, sempre em frente”.

Segui em frente. Olhei para trás por instantes e não havia nada, andara demais para poder voltar atrás. O caminho era em frente, não havia mais nada. A cada passo que dava, o caminho desaparecia atrás de mim mas eu tinha uma missão: “seguir em frente”.

As minhas pernas andavam sozinhas, o meu cérebro congelado, o meu peito empedernido e só aquele som, só as setas a mandarem-me seguir em frente. Já não havia árvores. Que saudades das árvores… O caminho era cada vez mais uniforme e cheio de nadas. Tinha sede até aos ossos e a minha pele, vermelha do sol, rasgava a qualquer contacto com o que deveriam ser pedras. Seguir em frente, sempre em frente, cantava com as setas, sempre em frente, mexiam os meus lábios.

O caminho era tão longo, o tempo não existia, era um conjunto de nadas e mais nadas, de canções de setas, de loucura que me aflorava a pele e me dava força às pernas. Avistei algo, segui em frente, um pouco mais rápido. Água, finalmente. Na beira de um precipício, água límpida e reluzente. Não havia nada atrás de mim, só um precipício em frente. A minha jornada terminara.

 

Pequena Grande Maldita C

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